Capítulo 7
Olá amigos e familiares! A coisa aqui esquentou nas duas últimas semanas...
Dia 19 de setembro, quarta da semana passada, tivemos nosso primeiro Baile Gaúcho. As vésperas do Dia do Gaúcho , 20 de Setembro, o estado ferve. O que mais se vê é gente piuchada nas ruas: peões e prendas, grandes e pequenos, criancinhas, jovens gurias e senhores e senhoras.
O peão de bombacha, bota, faixa, cinto ou guaiaca, que é um cinto mais largo com coldre muitas vezes, e lenço, usado solto por dentro da camisa de gola bem folgada. O tradicional branco ou vermelho para o grande baile do dia 20 de Setembro ou coloridos, mais modernos, para todas as ocasiões. As prendas em vestidos bicolores, corte cinturado, saias evasês ou godês, recheadas pelas saias de armação, cortes bem elaborados, muito laço, babado, bordados, aplicações... mangas bufantes , muitas vezes com babados na borda. Os cabelos acompanham o estilo e enchem os salões de beleza para penteados cacheados, meio rabo, coques, arranjos florais nos tons dos vestidos. Todo mundo se arruma assim mesmo, ao final poderiam parecer repolhos antiquados, não fosse a força da tradição, aqui respeitada e valorizada. Nathália correu na terça a encontrar sua roupa de prenda. Os vestidos variam de R$250,00 a R$700,00... caros para três temporadas. Por sorte, quarta, já pensando em alugar, descobrimos uma irmã da igreja que nos indicou uma outra vizinha sua que queria vender um vestido... preço muito bom! Realizamos o desejo. O problema foi só quando ela descobriu que no baile não se pode negar uma dança, “dar carão”, como eles dizem. O aperto chegou... que desculpa dar? No baile de quarta não foi necessário, mas na Igreja, foi mais complicado... Ela teve que encarar... E gostou da farra. Até eu rodopiei o salão com meu bispo na Igreja, um senhor de bigodão, pé de valsa, que os missionários chamam secretamente de “Mário”, aquele dos joguinhos de computador... Um outro rapazinho, Rafael, de seus 17 anos, me chamou também para dançar. Só comecei a aprender para o ano que vem... As pernas ficam moídas!!!
O programa, no CTG Piá do Sul, que comemora esse ano 50 anos e teve o grupo juvenil vencedor no Concurso Estadual de Dança Tradicional Gaúcha, incluía uma janta (frango assado na brasa -delicioso, arroz e polenta com molho, que dispensamos, e saladas verdes). Logo após, já beirando meia noite, aconteceu o Show de dança gaúcha. Lindas coreografias. Dois grupos: juvenil e adulto. Filmei a maioria, encantada, até a bateria acabar... A dança das chulas, em que dois rapazes sapateiam de botas e esporas em torno de um bastão de madeira, sem pisar nele... foi interessantíssima. Logo depois as boleadeiras de fogo: uma corda em cada mão tendo na ponta uma esfera de aço vazada com brasas dentro, que o peão manuseava com extrema agilidade e destreza no escuro da noite, fazendo-as brilhar e desenhar figuras no ar... Lindíssimo o efeito!
Fui surpreendida com o começo do Baile propriamente dito: casais de todas as idades, a maioria piuchado, tomaram o salão em rodopios seguros e bem conduzidos. Vi duplas de 70 anos, as prendas bem arrumadas, em vestidos cintados como se tivessem 16, e crianças de 3, 4 anos, no máximo, dançando a vontade com o companheiro no meio da gentarada crescida. Lembrei-me dos blocos de Maracatu de Olinda, quando vi esse fato tão natural ,mas que está a se perder no tecnicismo desses dias: pais ensinando naturalmente seus filhos a arte da alegria e da cultura regional, em lições espontâneas de vida vivida.
Os casais rodopiavam em sentido anti-horário, voltas grandes no salão, a posição de dança tradicional: mão na cintura da prenda, mão no ombro do peão, as mãos direitas dadas em ângulo reto, corpos balançando no ritmo da música. Via-se que mesmo os mais novos conduziam as moças, seguros de seu papel. O convite anunciava: “Preferência pela vestimenta tradicional. Não se admite: mini-saia, barriga de fora, jeans, camisetas, peão de brinco...” Achei que ia a um baile da Igreja... Então foi bonito ver como não é necessário abrir mão da tradição em prol de um nada oferecido pelas redes de TV que pretensiosamente nos sugestionam um comportamento globalizado.
Um CTG geralmente tem a mesma cara dos outros: um grande galpão, estrutura em toras de eucalipto, piso em dois níveis, galeria lateral e o salão central, esse de assoalho, feito para tremer no ritmo da música pelo batido dos pés. As “primeiras prendas”, regionais ou do CTGs, anfitrionando. São escolhidas não só pela beleza, mas por conhecerem a tradição, feitas guardiãs desse legado. Reconhece-se sua presença, nas apresentações são assentadas a frente. Desfilam com uma faixa de couro com título, como as de Miss, sobre os vestidos, anunciando colocação e região tradicionalista. Descobri que Santa Maria é da 13ª Região... Não me perguntem mais... acabaram-se os conhecimentos a respeito. O conjunto que tocou, de Pelotas, muito bom. O baterista também dono do vocal principal. Lembrei-me do Serginho, Roupa Nova... Só que tocaram Fandangos, uma música aqui do Sul que ainda não aprendi a diferenciar das outras.
O desfile de quinta começou cedo, com carros das principais empresas da cidade fazendo o marketing. Depois dessa parte, vem os militares e em seguida os CTGs. Cada qual querendo se apresentar melhor. Muitos cavalos, carros, carroções, gente espalhada nas laterais assistindo. Nós aqui de cima, na varanda, com os missionários do Staff (secretários e assistentes) e dois líderes de zona, já que o palanque principal, com o prefeito, etc, está bem justo em frente a nós. Fizemos uma rodada de pizza, mas com a chuva, usamos o forno elétrico, o que em nada diminuiu a farra dos missionários que comeram a valer (novidade!!!), enquanto tentavam abrir a massa em todas as formas possíveis...menos pizza redonda...
A diversão com os missionários continua, embora o trabalho duro também. Acho até que são indissoluvelmente associados... Manhã dessas recebi o telefonema de um deles perguntando se acaso tinha esquecido o paletó aqui. Como estava fora, respondi: “Pode ser, Elder... Você não esquece a cabeça porque está grudada no pescoço...”. Ao que ele rapidamente redargüiu: “Sister, e seu celular, onde está?” (quem não sabe que vivo perdendo o celular, dentro da bolsa, no carro, na mesa, etc., etc.). Respondi segura, já que tinha checado para sair: “Está na bolsa”. “Não está não... você está falando comigo!!!”. Ri uns 5 minutos de mim mesma... No mesmo dia a moça do estacionamento me recebeu “Agora já é gaúcha, e tem que torcer para o Colorado!!!”. Respondi que não era muito ligada em futebol (ainda bem que avisei!). Quando voltei com Rodrigo, ela afirmou a ele: “Gaúcha, e torcedora do Inter!!!”. Fiquei tão surpresa que falei pra ela: “Moça, mas não era para torcer para o Colorado???” Agora sei porque riram tanto de mim...


Já fiz 6 discursos na Igreja aos domingos, dei 14 treinamentos para missionários, 2 treinamentos para a liderança de distritos (São Gabriel e Quaraí), dois serões (palestras) para casais em Santa Maria e Livramento. Estou anotando o que falo em cada lugar com medo de perder a conta e repetir-me. Mas também estou aprendendo muito e tenho praticado com os missionários, que são “fera” nisso (ou máquinas, como eles dizem), para poder também ensinar os pesquisadores. Eles ficam muito entusiasmados de ver meu empenho, o que na verdade, é parte do que vim fazer aqui. A obra missionária da Igreja é envolvente e muito motivadora. É maravilhoso ver as pessoas mudando, comprometendo-se com Deus, fazendo convênios. E maravilhoso ver o empenho desprendido e sincero desses jovens tão especiais. Eu os amo cada vez mais. A cada dia levo algum chocolate para o escritório... estão mal acostumados. Mais ou menos a caixinha mágica da Vovó Pininha... Já sabem que se procurar, acham. Mas merecem... Sempre que posso, dou caronas, lanchinhos, agrados. Já vivem com tantos “nãos” que quero sempre que possível dizer sim. Descobri que a principal função de uma esposa de Presidente de Missão é amar... tenho orado para ser cheia desse amor por todos, fazendo assim diferença na vida deles.
Diogo continua super bem lá na BYU. Vive o sonho que tive um dia. Notas boas, Inglês caprichado, muito estudo (pelo menos é o que ele afirma...). Disse até estar comendo frutas e verduras, para quem puder acreditar.
Nat teve notas excelentes na escola. Tem o respeito e admiração dos colegas. Continua no Jazz e vai se apresentar em Dezembro, depois de ser dama de honra no casamento da Tia Débora, sonho antigo! No Inglês vai muito bem, já na classe de Intermediário. Entende tudo o que os missionários americanos falam, mas recusa-se terminantemente a responder a eles... Por outro lado, eu já começo a me soltar e falar com eles em inglês sempre que possível. Cheio de erros, eu sei, mas vou praticando. E melhorando... espero! Vamos tentar ter o dia do Inglês no Escritório: segunda e sexta. Para Rodrigo será ótimo, se ele topar.
O “Presidente” tem trabalhado muito. Entrevista 150 missionários a cada 6 semanas. Responde aos e-mails semanais deles... Não é fácil! Mas almoça conosco e temos tido um bom tempo juntos, envolvidos no mesmo trabalho. Está empenhado em melhorar os indicadores da missão, motivando e treinando os missionários. É um trabalho de médio prazo.
Fernanda também está feliz, fazendo aula de Street Dance com a Sara, filha do Dutra. Diverte-se com os missionários como se divertia com os amigos do Dogo. E eles aproveitam a disposição dela e pintam!!! Depois ameaçam: “Você não pode tocar em mim... sou um missionário!!!” A cozinha é sempre uma farra, ainda mais para quem...
Bem, fico por aqui. Tudo está bem, o clima permanece louco: um dia faz 30 graus, no outro 11... Ainda chove muito, as paredes úmidas. Mas quando o verão chegar de vez acho que será pior...
Estamos esperando visitas e contatos... Amamos vocês!






