Capítulo 16
Já se passaram mais 3 semanas e acho que esse tanto tem sido bom para voltar a escrever. Amigos, fico feliz quando recebo comentários sobre o que escrevi. Embora tão pessoal o que escrevo, compartilhar é sempre melhor que partilhar. Obrigada aos que o fazem.
Passamos a Semana Santa em Santa Maria mesmo, que como toda cidade "grande " esvaziou-se. Até o barulho da Avenida Medianeira, onde moramos , foi melhor. Ainda estranhamos a quantidade de carros a madrugada toda. A falta de respeito de alguns com a música ligada no talo para ouvidos ensurdecidos é constante qualquer que seja o lugar. Aqui também, plenamente audível do décimo andar. Solução: abro mão do meu gosto de dormir com janela aberta, o friozinho entrando para justificar uma cobertinha mais pesada. Teríamos condições perfeitas aqui... uma pena! Mas foi o que fiz naqueles dois dias de sossego.
A Semana Santa foi especial para mim. Recebi presentes simples dos céus: achei uma boa Cachoeira, “do Mezomo”, na Quarta Colônia, com direito a hidromassagem e caminhada no mato e no leito do rio; consegui comprar toucinho para torresmo pela primeira vez (já voltei lá e comprei de novo depois de acabar com todo o que tinha num Feijão tropeiro mineiro para o Conselho de Líderes de Zona). Achei mandioca da boa (que cozinhou e até desmanchou... hummmm!!!!) e o cinema reabriu (ontem assisti PS: I love you... é assim... com semanas de atraso, mas na telona que traz muito mais emoção). Nossas pesquisas "trilhais" nos levaram a uma montanha com mirante de quase 360 graus, com Camobi que é um bairro aqui lá embaixo , o que nos lembrou em muito nossas montanhas mineiras. Levamos Elder Gatto lá, num P-Day especial para um amigo de muito tempo. Descobri água de coco (coco verde do supermercado... ainda bem que trouxe o abridor nordestino), comi coxinha de catupiry (está certo que fomos nós mesmos que fizemos, mas ficou perfeita!): tudo o que eu desejava encontrar aqui chegou nessa semana realmente Santa. Deus é mais que bondoso comigo. Mas sexta feira da paixão é um dia triste para o gaúcho tradicional. Sem carne... todos os restaurantes fecham... Acho mesmo que eles deprimem... E depois de um dia perfeito de cachoeira tive que contentar-me com McDonalds... o único lugar disponível com a garantia do mesmo sabor insosso de sempre, até mesmo aqui em Santa Maria.
Na semana seguinte tivemos Conselho de Líderes de Zona, dois missionários mais experientes de cada uma das sete Zonas. Eles são os nossos líderes, aqueles que estão bem perto da linha de combate. Temos tentado levar a eles nossas preocupações e realmente nos aconselhar mutuamente. Procuramos tratá-los de maneira especial, para que aprendam que isso é liderança, lição aprendida tão bem com nosso amigo Elder Neil Andersen. Esse último foi especialmente fantástico. Preparei um treinamento sobre o uso do tempo e planejamento de um calendário. Ao final, muitos estavam boquiabertos por não terem pensado nisso antes, algo tão óbvio. Levei um Calendário de atividades de nossa família (2004... passou!), prática de anos que tem nos ajudado muito a reservar tempo para estarmos juntos. É um consolo quando estamos em final de carreira (ainda nos sentindo aprendizes), vermos que ao menos tentamos fazer o mais certo que sabíamos...
Depois Rodrigo falou sobre ensinar e batizar famílias. E deu-me um pouco de tempo para que eu falasse sobre minha experiência. Enquanto me preparava, veio-me claro à mente Alma 48 e 50, quando Amaliquias "veste" os lamanitas para a luta, mas encontra os nefitas protegidos por “pequenos fortes”. Aprendi que Morôni mudou o foco da proteção individual para a proteção do grupo... e surpreendeu Amaliquias. Essa é a questão: a família é um grupo. Então mostrei a apresentação de Powerpoint que anexei, que são recortes do Church News e da Liahona de 1970, logo depois de meus pais se filiarem à Igreja. Meu pai precisou do apoio de minha mãe para parar de fumar e aquelas 5 pessoas iniciais (Papai, mamãe, Eu, Ricardo, Carla) hoje são um grupo muito maior. Eu sou a de lacinho no cabelo. Imaginem como me emocionei... Aquele dia em que meus pais ouvem a mensagem dos missionários é sagrado para mim, pelo impacto que trouxe à minha vida. Amigos, membros e não membros da Igreja: conseguem me imaginar sem a fé que professo há tantos anos? Foi misericórdia divina moldar-me desde pequena... Acho que seria impossível em qualquer outra época da minha vida. Rodrigo acrescentou que, ao contrário, foi ensinado sozinho e ninguém ainda é membro da Igreja na casa dele. Ainda só ele... Um grande contraste que os fez pensar antes de ensinar o “Joãozinho” sem os pais ao menos ouvirem a mensagem. Fiquei feliz pela inspiração que recebi para fazer esse treinamento. E pela gratidão que senti em meu coração pelo que aqueles missionários fizeram.
Em seguida tivemos a reunião de Testemunhos. Da vez passada reservamos 45 minutos e eles foram tão breves que sobrou tempo. Mas dessa vez, talvez por estarmos mesmo mais emocionados, os testemunhos foram bem pessoais. Elder Crose, de Utah disse que quer ficar na missão, porque o pai está plenamente ativo, selou-se à esposa e tem chamado na Igreja e vai sempre ao Templo. A mãe também voltou pra Igreja e foi ao Templo. Ele acha que ajuda mais aqui do que em casa, mas vai embora em Junho, de qualquer maneira, como todos. Elder Paz, do Mato Grosso contou da infância difícil , muitos problemas de saúde dos pais e falta de dinheiro, mas com a luz do evangelho a lhes dar esperança e da alegria de hoje ter um irmão na missão. Elder Jacob (do Acre- “o Acre existe gente... conheço alguém de lá!,” dizia Diogo ao conhecer esse rapaz) e Elder Moreira (Fortaleza) riram muito para não chorar... mal conseguiram! Elder Luiz, de São Paulo (ele tem 24 anos) prestou um testemunho muito pessoal e tocante. Chorou até... Falou dos 4 anos que ficou inativo e da misericórdia de Deus em chamá-lo ao arrependimento. Mal conseguia falar. Elder André (também de São Paulo) falou da sua conversão recente... foi ensinado sem os pais e ainda no Aeroporto o pai garantiu que 24 meses era muito e que ele poderia voltar antes disso se quisesse. Hoje o pai e o irmão estão batizados e a mãe começou a ouvir as mensagens essa semana. Elder Eduardo, de São Paulo falou da escolha difícil entre uma namorada séria e o evangelho e de como Deus mudou a sua vida. Elder M Lopes (São Paulo) contou dos 13 anos de mudanças na sua casa, ele, a mãe e as irmãs, depois do evangelho ter entrado na vida deles. Elder Wright (Utah) chorou como menino ao lembrar como ele aprendera e fortalecera seu testemunho com cada um de nós, data marcada para sair agora em abril. Elder Rebicki (Curitiba) falou de sua conversão em Livramento. Nascido na Igreja, sempre foi "convencido" da verdade e numa experiência espiritual especial veio a ter certeza pessoal da veracidade da Igreja somente depois de quase um ano na Missão. Elder Queiroz (Rio de Janeiro) falou de como sentira o espírito de maneira tocante nessa reunião. Foi engraçado porque enquanto íamos ao Restaurante no almoço ele falou que gostava de ter tido dois presidentes diferentes porque a cada Conselho com Presidente e Sister Mack ele sentia o espírito bem forte nos treinamentos deles. Perguntei se conosco era diferente e eles disseram que nossos treinamentos eram mais... práticos. Ainda comentei que seria muito desejável que eles sentissem o Espírito conosco também. Então ele testificou de como se sentira nessa tarde. Foi realmente muito bom. Sinto-os investidos com poder para realizar o trabalho e me senti cheia de amor por eles. Rodrigo até confessou que desistiu de vez de ser padrasto. Não resisti e ao final abracei cada um. Minha vontade era dar um beijo de mãe... resisti...



O trabalho prossegue aqui com firmeza. O número de 124 batismos esse mês passado foi o melhor em 5 anos! Comemoramos , principalmente porque significa que os missionários estão acreditando que é possível. É uma questão de levar a fé ao coração dos missionários. Eles precisam acreditar que podemos fazer mais e melhor. De quando em vez travamos contato com alguns desses conversos e a alegria que sentem ao encontrar o evangelho é contagiante. Vale a pena todo o esforço. Sacrifício é realmente isso: trocar uma coisa boa por outra melhor. Só estou preocupada por que temos alguns missionários doentes agora. Problemas no joelho, coluna, infecções intestinais, cirurgia. Fico preocupada. E eles carentes, com razão. Felizmente consegui vacina de gripe para todos e espero diminuir os casos do ano passado.
Sinto que somos guiados por Deus nas mínimas coisas. Quem me conhece, sabe que não sou uma mulher de tanta fé assim (parêntese: falando em fé e aumentar a fé, um presidente de ramo bem simples falou no púlpito: “Irmãos! Precisamos aumentar nossas feses!” Rapidamente os missionários replicaram: “Come mais, Elder!!”, o refrão que ouviam a cada almoço antes de adverti-los a não se alimentarem em excesso...bagualismo puro!). Mas voltando, nunca vivi tão beata assim. Sempre considerei que Deus nos dava habilidade para pesquisar, ponderar e tomar decisões que não tinham uma única resposta. Como disse Elder Scott, Ele as vezes nos deixa caminhar por conta própria somente garantindo que não daremos o passo final em um caminho errado sem nos advertir, mas permitindo-nos experimentar o aprendizado da escolha pessoal. Cheguei aqui disposta a aprender mais sobre como recebo revelação pessoal e cheguei a comentar com missionários amigos que achava que Deus não me falava de maneira objetiva. Mas vejo que essa comunicação tem sido aprimorada e vejo-O agindo de forma cada vez mais consistente em minha vida. Vejo que para desincumbir-me de meus deveres minha mente se ilumina e o entendimento se abre e sei exatamente o que devo fazer , ensinar, escrever e organizar. Também percebo que meus desejos sinceros encontram respostas de uma forma que nunca antes recebera. Exemplo: temos alguns missionários que eventualmente precisam de aconselhamento psicológico. Temos uma excelente psicóloga em Cruz Alta, ex-missionária, o que facilita muito as coisas. Mas ninguém em Santa Maria. Ontem, ao sair do prédio do escritório observei que temos vários psicólogos lá e fiquei pensando que o mais razoável seria conversar com um deles, ensinar a eles o evangelho para que pudessem ajudar nossos missionários. Inclusive a proximidade seria interessante. Precisávamos de alguém aqui, orei silenciosamente. Na mesma noite recebi um e-mail dessa psicóloga contando dos planos de atender semanalmente aqui em Santa Maria... O Senhor sabe das nossas necessidades. E atendeu-me tão rápido, talvez para que não fosse ingrata de pensar que tudo não passara de uma coincidência feliz.
Continuo a ler meus diários antigos. Amadureci tanto!!! Passei a escrever melhor (boa dica para quem não sabe como começar-comece!!! Você vai aprender como fazer fazendo!) Felizmente: já não agüentava mais minha infantilidade. Estou pelos 16, 17 anos, descobrindo a vida, os amigos, as conquistas amorosas, a diferença entre amizade e interesse, o carro (abençoado seja aquele que chegou cedo na minha vida e aqui permanece fiel ao longo dos anos), o testemunho. Interessante ler sobre meus esforços missionários e comprometimento com o trabalho na Igreja. Nessa época falava da Igreja para todo mundo. Dava Livros de Mórmon para taxistas, levava os missionários na casa dos vizinhos, entregava livros da Igreja para pastores batistas do Colégio onde estudava, ensinava o plano de salvação às amigas do colégio. Era muito corajosa. Matriculava gente até no ônibus para os cursos por correspondência do Sistema Educacional da Igreja. Um amigo veio a se batizar, Valdely Júnior. Dele recebi um cartão agradecendo a oportunidade, pena não ter permanecido. Saía com mamãe para o cinema, para o Shopping, para paquerar de carro com as amigas... tinha me esquecido de muitas dessas coisas. Era até uma boa irmã, viu Michelle, Gustavo e Rafael: levava vocês para passearem de carro no Zoológico assim que comecei a dirigir!


Alguns momentos julguei divertido partilhar. Já ri muito sozinha desses trechos. Vai ver que só fazem sentido pra mim. Mas alguns vão se situar. Estávamos acampando, primeiro acampamento de jovens (e nem tão jovens assim) da Estaca Belo Horizonte em Março de 1981. Quem se lembra da irmã Guaraciaba, uma viúva desde seus 20 e poucos, com seus quase 70 nessa época, muito séria, mas descobrindo a vida, pelo que ela me relata na época:
“Ela participou do acampamento numa ótima, e não reclamou um instante do conforto nem das bagunças da madrugada. Já de volta, me contou uma experiência dela. Disse que quando foi buscar água na mina, um garoto gritou que nem índio lá em cima. E ela respondeu aqui debaixo: “ Eu nunca tinha gritado assim antes. E gostei tanto que voltei o caminho todo gritando. Perto da barraca, vi um homem e gritei prá ele. Como ele não respondesse, continuei a gritar. Quando cheguei perto, vi que era o Scari e perguntei de que tribo ele era, porque se não respondera, era porque não conhecia nosso grito de guerra...”, conta ela. Achei o maior barato e fiquei agradecida de ter descoberto isso mais cedo na minha vida.”
Outra ,da Michelle , minha irmã, na época com 4 anos:
09 de abril de1981
“Outro dia quase morri de rir da Michelle. Alguém comentou com a mamãe que ela estava com uma cárie nos dentes da frente. Mamãe esclareceu que não era cárie, mas depósito de esmalte. Ela, mais que depressa, catou um algodão com acetona e na maior das inocências: “Tira prá mim, mãe, tira!”
Agora eu, filosofando profundamente:
Domingo, 17 de maio de 1981
“Mais uma semana! Mas tudo bem. Sabe, apesar de algumas crises existenciais, eu estou até legal. De repente, na sua vida, você começa a ponderar sobre porque você estuda Química. Que é que eu vou fazer com isso?”
A verdade é que ainda não descobri o que fazer com Química... Mas já descobri o que aquelas experiências todas, boas e ruins, fizeram por mim agora que tenho 43 anos. Elas estão registradas para me lembrarem de quem eu sou e para não me deixarem esquecer as muitas e ricas bênçãos que tenho recebido de Deus nesses anos todos. Tenho mais do que imaginava alcançar. Mais do que era capaz de valorizar àquela época. Quando olho a vida desses tantos que me cercam, mal começando a escolher, oro para que sejam plenos na alegria como eu tenho sido. As coisas de maior valor não são contadas em números nem podem ser fotografadas, inclusive gozar da amizade de muitos que já estavam em minha vida nessa época e ainda permanecem, para minha alegria. Que esses não sumam!!! E de muitos outros que foram se juntando a nós ao longo do caminho, enriquecendo essa experiência fantástica que é viver.






