Capítulo 15

Lá vou eu, para mim mesmo e para quem é paciente e tem tempo de ler isso tudo ( e de preferência ainda comentar com a escritora...). Essa semana fiquei feliz por uma ex-missionária nossa, Sister Shephard, ter escrito sobre os e-mails. Diz ela: "E sim...eu gosto de ler seus e-mails enormes. Me deixam feliz. Me deixam pensando também. Eu gosto muito de ver o que passa em sua mente...acho interessante. Eu concordo com muitas coisas que você fala sobre a vida. Eu sou tão jovem...mas eu gosto de olhar na vida e pensar sobre os hábitos e ações das pessoas. As vezes eu me sinto velho... Também gosto de ouvir como as coisas estão progredindo por ai." Aí faz-me pensar que vale a pena... ainda toco o coração das pessoas com palavras... pretensão essa a minha...

O caso do armário na Hilux em Alegrete ainda em 2007– Elder Kenworthy e Elder Hurst
O caso do armário na Hilux em Alegrete ainda em 2007– Elder Kenworthy e Elder Hurst
O staff nessa época
O staff nessa época
Eu e Elder Dickinson, secretarío financeiro
Eu e Elder Dickinson, secretarío financeiro

Continuamos nosso trabalho e falar de como estamos cuidando das casas e dos missionários é repetitivo. O tempo passa e aqueles nomes que mencionava em outros e-mails agora já estão em casa, "mortos" como os que ficam aqui dizem. Outro dia relembrei com Elder Wageman o caso do armário na Hillux com mais 4 missionários, eu espremida no volante , tendo que murchar a barriga para conseguir dirigir... dois deitados no chão do carro no banco de trás (Elder Kenworth e Elder Hurst), gritando "tá quente aqui, tá quente aqui", um terceiro dentro do armário (Elder Santos) e o quarto na frente, joelhos no queixo com seus 1,95 de altura (Elder Kennedy)... Coisa para não se esquecer, tão divertida, mas agora só Elder Wageman e eu ainda sabemos do caso... tudo é passado. Todos já foram embora. Mas muita coisa acontece no presente, como Elder Dickinson, secretário financeiro eficientíssimo que também é muito divertido diz: "Sister, tem que divertir". Outro dia me surpreendeu saindo de uma caixa de papelão gritando, escondido por cobertores, como um daqueles palhaços que você abre a tampa e salta. E assim é que o companheiro, Elder Martins, secretário executivo, está progressivamente se soltando e desemburrando. Temos bons secretários, muito eficientes. Os dois adjuntos que vão duas vezes por semana também estão em ponto de bala. Ajudam muito com correio, organização, descarte de coisas.

Essa semana tirei 5 sacos de 100 litros de papéis velhos, tão pesados que tivemos que arrastar para não rasgar. Eles já sabem que quando estou por perto não há tempo a perder. Um deles, Elder Sousa, vai embora na terça que vem. Liberou o serviço financeiro que estava acumulado. Já Elder Fábio está sempre pronto a servir. Vem de família muito humilde e depois de 2 meses sem notícias me pediu para ligar na sua casa, a mãe tem dificuldades para escrever e depende da irmã, mas mandou-lhe "um abraço e um beijo de mãe" .

Tenho muito filhotes agora que estão de volta aos EUA. Isso nos deixa com um pezinho por lá... Interessante como é a vida. Lógico que a isso somo o fato do próprio Diogo, filhote-mor, estar lá. As vezes parece-me que Salt Lake City é logo ali... na verdade muitas vezes vislumbro os lugares que eles mencionam ou teço imagens da vida de lá. Lembro das lojas (meu sonho de consumo são 2 horas a cada 6 meses num Costco... já disse isso aqui?), das redes de comida, dos cheiros e principalmente da Praça do Templo em época de Conferência Geral. Nunca pensei que fosse me sentir tão ligada ao American Way of Life, embora seja ainda um desafio acompanhar a cabeça e jeito desses nossos novos amigos, os pés lá e o coração em parte perdido nas terras do sul do Brasil. Algumas famílias de missionários nos contatam. Outro dia os Wageman levaram Diogo para um jantar. Fiquei feliz que ele tivesse essa chance de um jantar " familiar" de domingo a noite. Sempre ficam encantados com o jeito despachado dele e escrevem e-mails elogiando. Também recebemos um pacote da família do Elder Blackhurst, gravata e creme hidratante. E os Wright que vêm pegar o filho em Abril e os Thomas, que vêm em Julho, estão em contato para trazer algumas coisas. É assim, amigos multiplicados. Quase não se passa um dia sem que fale ou " e-mail" ou " chateie" com alguns deles, brasileiros inclusive. Já temos até convidados para o Natal... e gostamos dessa proximidade que vai nos unir eternamente.

Com a família Wageman em Sandy
Com a família Wageman em Sandy
40 graus!!!
40 graus!!!

Estamos recebendo alguns sobretudos doados por uma família generosa e também fruto de um projeto de serviço de um escoteiro de 16 anos de nome..... Aos poucos estão vindo em malas em viagens ao Brasil. Mas param ou em São Paulo ou Curitiba. Diante da perturbação de trazê-los para cá via correio, caro e trabalhoso, na última semana lembramo-nos de um presidente de estaca aqui da região que passaria por Curitiba a caminho do sul com seu caminhão, após compras em São Paulo. Tivemos que agir rápido. O guardião das malas estava no Rio de Janeiro nesse dia. Por sorte, consegui falar em Utah e obtive o telefone de quem poderia me entregá-las. O desafio seguinte foi conseguir alguém que as levasse ao Rodoanel, a fim de não importunar nosso amigo do caminhão com a necessidade de entrar em Curitiba. Consegui falar com uma irmã, que me afirmou com todas as letras que o marido não permitiria que ela fosse se encontrar com um camioneiro... Achamos graça, eu e Rodrigo, desacostumados que estamos de ficar imaginando essas restrições para um ou outro. Ao final, mobilizamos Bernardo, batismo do Rodrigo quando na missão em São Paulo no século passado. A pessoa que estava com as malas até o conhecia, empresário bem sucedido do ramo de transporte e expressou-se surpresa: "mas ele vai deixar a empresa dele do outro lado da cidade para fazer isso..." Achei que cabia o comentário: "Vai ver que ele se sente em dívida eterna com Presidente Myrrha, responsável por ensiná-lo e batizá-lo...". Acho que é assim que muitos se sentirão a respeito de nossos missionários: em dívida eterna! Resultado: antes que se pudesse pensar, as malas com sobretudos estavam aqui. Para nossa alegria e satisfação, permitindo que trabalhemos para controlar essa distribuição entre os que necessitam de agasalho para o frio. Fiquei feliz de atalhar o trabalho de quem já fizera tanto.

Stéfano Elder Gatto em Florianópolis
Stéfano Elder Gatto em Florianópolis
Franklin Elder Santos em São Paulo Norte
Franklin Elder Santos em São Paulo Norte
Gil Filho Elder Gatto em Santa Maria
Gil Filho Elder Gatto em Santa Maria

Tenho recebido notícias de meus missionários outros. Isso é, aqueles amigos do Diogo, meus amigos , ex-alunos do Seminário, filhos de coração e que estão na missão. Lucas Lage, Stefano, Franklin, Gilmar Gatto, Érico Júnior. Pois é... eles já estão pegando no tranco... o trabalho é desafiador: Dias de muito calor, alegria nas coisas simples, algumas dificuldades com companheiro... serão 2 anos assim e vão sentir falta e saudades toda a vida. Como será essa mágica? Ainda tento entender. Meus ex- missionários dizem que não sentem falta do colchão velho , das caminhadas, do calor, mas mesmo os mais reclameiros e fubecas morrem de saudades da Missão. Ficam me achando na Internet para chats e sempre perguntam dos companheiros, dos batismos, da missão. Alguns outros até se recusam a discutir o assunto. Acho que deve doer... sei lá...

Nat está bem. Animada com o Seminário. Mas dia desses estava saudosa pensando em BH e em alguns amigos que nem estão mais lá. Ela sabe que tudo mudou, mas sente falta "daquele tempo" ...Tem umas 3 amigas boas aqui. Esteve no Rio de Janeiro para a medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática e adorou o programa. Jantar em Churrascaria de primeira, visita ao Cristo Redentor, Festa no Museu da República, Solenidade no Teatro Nacional com Lula e Ministro da Ciência e Tecnologia entregando as medalhas. Está chiquérrima e disse que ano que vem quer ganhar de novo. Afinal, esteve entre os 100 melhores de 17 milhões de alunos no nível dela (Quinta e Sexta séries). O melhor, diz ela, é ganhar algo que Diogo nunca ganhou... Nunca os ensinei a serem competitivos assim... sempre pedi que eles fossem bons, mas a disputa entre irmãos continua, atenuada pela distância. Está ocupada demais: escola, balé, Inglês, basquete, piano, seminário. É uma mágica ficar equilibrando tudo o que faz...

Viagem de prêmio da Obmep
Viagem de prêmio da Obmep
Recebendo a medalha de ouro na olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas das mãos do Ministro da Ciência e Tecnologia
Recebendo a medalha de ouro na olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas das mãos do Ministro da Ciência e Tecnologia

Fernanda vai bem. Fiel como sempre. E super ativa na Igreja dela. Agora até faz um programa de rádio. E canta em todo o lado. Viaja sempre nos finais de semana. É que a música aqui é horrível, na nossa igreja e na dela. Adora os missionários e todos amam sua comida. Sempre aparece alguém com esperança de ajudar na conversão dela a nossa Igreja. Geralmente pedimos que se abstenham. O respeito é a chave do equilíbrio. É bom ter alguém que lê seus pensamentos culinários... também já são mais de 6 anos de parceria.

Diogo vai bem na BYU. Apaixonado... vai sofrer quando for para a Missão. Mas está muito consciente do que tem que ser feito. Tem estudado e trabalhado muito, o que para ele é um aprendizado e tanto. Ele sempre foi virador... e assim vive lá. Agora come frutas, molho de tomate, queijo, lasanha, parmegianas, vocês nem acreditariam. Compra banana e paga um dólar cada!!! E maçã que diz ele ter gosto de cheetos sem sabor. Mas está aprendendo a comer melhor. Coloca roupas brancas de molho na banheira com água quente e discute a técnica com Fernanda pelo telefone. Temos nos falado muito. Uma proximidade de alma abençoada. Ele partilha muitas coisas comigo e eu com ele. Outro dia me confessou que me reconhece e ao pai nas suas próprias atitudes. Tem um pouco de cada um de nós e está tomando consciência de si. Um tempo muito lindo. Estou por perto o suficiente, embora não fisicamente. Às vezes a saudade aperta, mas é comum ficarmos 1 hora ao telefone, para desespero dele com tanto a estudar e fazer. O assunto não acaba!!!! Mariana parece ser um amor, tem-no feito ser melhor e isso é o que uma boa namorada pode fazer por um rapaz: despertar nele sua melhor parte.

Rolando na neve com Lucas e Itinoses
Rolando na neve com Lucas e Itinoses
Na Praça do Templo de Salt Lake City
Na Praça do Templo de Salt Lake City

Rodrigo só pensa em batismos com os missionários. Vejo que a Missão inteira começa a pegar fogo. É comum termos duplas ensinando mais de 40 lições por semana. A média da missão, média, com fubecas inclusos, está em 25 lições por dupla por semana. Subiu muito. E isso é bom. Mas vamos orar e jejuar por batismos, que é o fruto que contamos em nossos cestos. Um dos maiores problemas que os missionários enfrentam aqui é ter que esperar pelos casamentos para os batismos. Não basta morar junto há anos, tem que ser legalmente casado e coisa rara encontrar casais aqui assim certinhos! Que coisa, né? Só encontramos uniões estáveis, como se define hoje na Lei o que antes era um escândalo social. Longe de mim querer voltar a esses dias de condenação (para não se dizer crueldade) moral, mas ainda há benefícios e suporte social no casamento legitimado pela lei. Toda nação deveria saber que é nas famílias que a sociedade se apóia, e que casais estáveis tem maior chance de cuidarem de seus filhos, um ônus pedagógico e social menor para um estado educacionalmente falido. Coisa de Rede Globo... E costuma demorar muito, ser caro, exigir divórcios, certidões e acertos. Demora... mas quando o missionário vai embora, eu costumo mandar foto do casamento para eles... ficam faceiros, como se diz aqui.

Nós dois, eu e Rodrigo, seguimos descobrindo o que é trabalhar juntos num mesmo lugar. Sempre tivemos vidas próprias e independentes e agora percebemos que reagimos bem a essa nova ordem das coisas. Por vezes assustamos os missionários discutindo bem "sinceramente" nossas idéias. Mas eles logo percebem que estamos bem um com o outro. Esse é o nosso jeito e nossa base de amor de mais de 20 anos permite a superação com tolerância mútua e muitas vezes bom humor do Rodrigo, devo confessar. Fim de semana desses tivemos um P-Day diferente e até fomos a um cinema enorme, 1100 lugares, que me lembrou em tudo os tempos de Palladium, Jaques, Royal, Brasil, Pathé.... quem se lembra??? Foi emocionante, voltei no tempo.

Passeio de bicicleta pelas estradinhas da Quarta colônia
Passeio de bicicleta pelas estradinhas da Quarta colônia
Roda d’água com mais de 120 anos
Roda d’água com mais de 120 anos

Estivemos em Porto Alegre semana atrasada e fomos ao Templo. Que bênção!! Senti-me especialmente bem dessa vez. Lembrei-me de Elder Hinckley contando que no selamento da 23a neta do presidente Hinckley (ele teve 24 netos), o mesmo declarou que aquilo era a melhor coisa que fizera em toda a sua vida: selar para o tempo e a eternidade cada um de seus filhos e seus netos. Elder Richard Hinckley comentou de sua ponderação no momento: de tudo que ele fez, o melhor? Isso porque fora muito o que ele fizera... Foi especial descobrir que a Sala Celestial do Templo é o lugar em que o véu que nos separa dos que se foram é fino. Senti que é lá que vou estar mais perto da Vó Naná... Até chorei de saudades dela (ela me faz muita falta, especialmente num lugar onde ela amava estar), mas tive muito consolo nessa compreensão. Minha visão de eternidade está aumentado e eu preciso daqueles a quem amo lá comigo. Senti vividamente que nossos laços são tão eternos quanto podemos imaginar, mas sinto que estamos todos quatro muito bem. As bênçãos da Missão tem-se derramado sobre nossa vida... Acho que nunca desfrutamos de tanta espiritualidade e harmonia. Senti-me renovada, a despeito dos desafios que pessoalmente estou enfrentando esses dias. Estavam ali também dois casais acompanhando seus filhos, tão jovens, em preparação para seguirem para suas missões. Pensei no Diogo... Logo terei o privilégio de estar nesse lugar sagrado com ele.

Hoje fizemos um passeio excelente pela Quarta Colônia, de bicicleta. Estradinhas vicinais com sítios e riachinhos ladeando montanhas bem verdes. Gado, aves, ovelhas, muitas flores, as esponjinhas profusamente floridas nessa época em que a temperatura começa a aliviar, por volta de 20 graus hoje. Visitamos uma roda d´água de mais de 120 anos, herança dos primeiros colonos italianos, ainda em funcionamento. Fiz minha parte em acelerar o coração, como fui desafiada com promessa de que assim brincarei no chão com meus netos e bisnetos . Em outros dias subo as escadas (10 andares) para casa. Achei que a tarefa vale pelo retorno... pelo menos quero crer nisso.

Igreja em Livramento
Igreja em Livramento

Amo cada um de vocês. Tenho tantas saudades... Mas não consigo nem pensar em lamentação. O período que estamos vivendo é uma bênção. Das maiores que teremos na vida. E poderemos nas eternidades contar que estivemos juntos nessa... Só acho que está passando rápido demais. Amo estar aqui. E BH nem me faz falta. Só cinema. Mas hoje abre um aqui. E Açaí, e água de coco. E mandioca boa (só comprei encruadas e suadas, se essas expressões fazem sentido para vocês... aqui não fazem...). E cachoeira. E família e amigos... Só! Minha glicose que estava perigosamente no limite agora está ótima, 89 (é feio tornar público esse tipo de coisa, mas comemorei, porque afinal não emagreci nada e esperava resultados piores). Também não tenho stress... Bênçãos e mais bênçãos...Tenho lembranças preciosas de sua amizade e carinho. O reino Celestial faz mais sentido agora que sei o que é ficar sem vocês na minha vida, mesmo que temporariamente.