Capítulo 14
Meus queridos, lá vou eu em mais uma aventura de escrita, para mim pelo menos. Peço desculpa por ser tão prolixa... estou cada dia pior, confesso. Mas tenho tanto o que contar essa vez!!!!
Semana de Carnaval foi uma farra para nós. Acho que nunca pulei tão miúdo: saída de 20 e chegada de 17. Um grupo bom de chegada, missionários preparados, a maioria segunda geração na Igreja. Tenho ficado com o que sobra deles quando se vão e estou descobrindo que lençóis e toalhas são como rato aqui: multiplicam-se "ad infinito". É divertido, porque sempre pergunto quem tem 4 lençóis (2 jogos, um para ser lavado e outro em uso) e é raro o missionário que vem assim preparado. Não sei o que se passa na cabeça deles... De qualquer forma, temos como suprir. Descobri uma regra interessante: na missão “há bastante, até de sobra” e assim é que pela generosidade e fartura de alguns, muitos são abençoados. E circulamos camisas, meias em bom estado, sapatos (importante para quem chega com sapatinhos sociais, solado fino, pronto para arrebentar os pés de quem anda mais de 10 quilômetros por dia...), sobras de medicamentos para dores leves, pó anticéptico para os pés, material de papelaria, livros e até máquinas fotográficas convencionais...Nada se perde. E sempre há aqueles lixeiros contumazes.


Essa semana passada foi bem especial. Recebemos a visita do casal Richard e Jane Hinckley. Ele, filho do Presidente Gordon B Hinckley, falecido no dia 27 de janeiro e uma das minhas perdas recentes. E foi tão interessante o que se passou! Chegaram no domingo, vindos de Cachoeira do Sul, onde como Autoridade Geral presidiu uma Conferência de Distrito. Confesso que estava um pouco aflita e sem compreender muito bem o porquê da visita. O usual é termos um Tour de Missão por ano, geralmente com alguém da Presidência da Área Brasil. E em dezembro passado tivemos a visita de Elder Ellis, que foi fantástica, mas recente. Não considero que seja usual ter uma outra autoridade geral nos visitando, ainda mais tão seguido, ainda mais alguém que é o chefe do Departamento Missionário da Igreja… Na tarde de domingo enquanto aguardava, estava meio aflita. Ansiosa talvez. Ocorria-me que as coisas não dariam certo, que talvez estivesse cansada demais para 3 dias de viagens e 100% Inglês. Pensava até que não conseguiria me expressar adequadamente, que não atenderíamos seu gosto tão culturalmente diferente do nosso. Em outras ocasiões, exceto quando recebemos Elder Dallin Oaks, eram pessoas com vínculos com Brasil. Sabiam o que esperar da comida e de nosso comportamento, que descubro cada vez mais ser diverso do americano. Mas dessa vez, imaginava eu, filho do Profeta, recém falecido, porque viriam aqui?
Chegaram por volta das 4 da tarde, recém almoçados, de início bem formais, o que nos fez postergar o jantar para as 19 horas. Nesse intervalo, Sister Hinckley veio usar o computador e gentilmente mostrou-me alguns e-mails recebidos de amigos sobre o falecimento de seu sogro. Um em especial em que se mostra templos e mais templos lado a lado com fotos antigas. (http://www.youtube.com/watch?v=MC0W0ZVI9ak) Lembro-me quando Presidente Hunter falou sobre os templos, e logo em seguida faleceu. Presidente Hinckley então honrou esse compromisso de seu antecessor de uma maneira maravilhosa! Mostrou-me também a história do hino “What Is This Thing That Men Call Death?” letra desse homem fantástico e a versão em espanhol. Conversamos um pouco sobre como foram os acontecimentos daqueles dias, ela expressando sentimentos profundos mas calmos. Ao ver algumas fotos emocionei-me e senti-me constrangida por chorar na presença de seus familiares mais próximos que agüentavam firme... Logo estávamos amigas, trocando e-mails e idéias. Falei-lhe da perda da minha avó e da similitude que enxergava na situação, guardadas as proporções. O falecimento é um momento solene, mas o falecimento de um justo é um momento sagrado. Abriu-me a visão e senti que Deus dera-me a oportunidade de preparar-me também para perdas futuras. Eles amaram o jantar de salmão grelhado com molho de maracujá, purê, salada de manga com hortelã e castanha de caju e em especial a sobremesa trazida da Kempers Haus de Santo Ângelo (realmente maravilhosa...adoro ir a Santo Ângelo!).
No dia seguinte bem cedo saímos para Ijuí, duas horas de carro. Nossos missionários esperavam reverentes na capela, todos assentados em silêncio. Alguns foram convidados a discursar e a ensinar o plano de salvação e fizeram-no brilhantemente. Eu expressei alguns pensamentos sobre sempre lembrarmo-nos da misericórdia divina em nos resgatar do cativeiro da descrença e ignorância, aliando a isso nossa responsabilidade sagrada de compartilhar o que sabemos com as pessoas para ampliar a memória do povo (Alma 36). Fui a tradutora para Sister Hinckley e tenho certeza de que alguns de nossos velhos missionários surpreenderam-se de que eu pudesse falar Inglês. Ela fez sugestões interessantes sobre como os membros podem ajudar na obra missionária. Tantas maneiras além de dar referências e almoços! Em seguida Rodrigo falou brevemente sobre o que define um missionário de sucesso. O tempo então foi dado a Elder Hinckley. Ele foi muito simpático, envolvendo a todos e falando sobre coisas que certamente estavam na cabeça de vários deles: explicou que viria a América do Sul para visitar alguns Centros de Treinamento Missionário, passando por Buenos Aires. Assim, tendo algum tempo livre, contatou seu amigo pessoal Elder Didier, presidente da Área Brasil e ofereceu-se para ajudar, recebendo então a designação de Elder Packer de visitar a Missão Porto Alegre Sul e Santa Maria.
Depois tomou algum tempo para falar do falecimento e do funeral de seu pai. A família está muito agradecida de tudo ter-se passado com rapidez. Imaginavam o desconforto que seria inúmeros telefonemas da mídia... Presidente Hinckley levantava-se bem cedo, preparava sozinho seu lanche e seguia para o escritório. Fez isso na quarta mas sentiu-se indisposto para o trabalho na quinta e sexta. Sendo tão inusual, a família preocupou-se e no sábado, antes de seguir para um designação em Las Vegas, Elder Hinckley passou no apartamento para dizer tchau, ainda sendo respondido. Mas em seguida, recebeu uma ligação chamando-o de volta a Salt Lake, uma vez que seu pai não estava bem. Passaram toda noite de sábado em sua companhia, mas segundo Sister Hinckley ele já estava confuso e pouco consciente. Às três da tarde Presidente Monson, seu conselheiro na Primeira Presidência por tantos anos veio ao apartamento com Elder Eyring e Elder Packer. Deram-no outra bênção de conforto e paz e às sete ele faleceu. Na segunda, diz Elder Hinckley que se viu parte de um “Comitê para o Funeral”, coisa nova para ele. Os preparativos se estenderam até na quinta, quando o corpo recebeu as últimas homenagens dos membros da Igreja. Mas à noite já, quando a família se encontrava sozinha, o Coro do Tabernáculo veio e cantou três hinos para eles, o que foi um consolo e um momento especial. A música realmente faz milagres, elevando nossos corações em gratidão e acalmando as almas. O sepultamento (transmitido por satélite e visto por muitos de vocês) foi no sábado. Agradeceu pelo sistema inspirado de sucessão na Primeira Presidência e relembrou como voluntariamente expressaram seu apoio incondicional ao Presidente Monson. Realmente mais uma bênção do evangelho restaurado!
O mais interessante veio solto nas conversas profícuas que compartilhamos. Perguntei a Sister Hinckley como era conviver intimamente com gente que nos parece viver em outro degrau. “Parecem-me gente normal”, foi a resposta (a mim ainda não...). Diz ela que na primeira visita a casa do namorado preocupou-se muito, uma vez que tinha pai não membro x pai apóstolo, até ver que o assunto do jantar foi quem ficaria com o carro na segunda, quem molharia as plantas, quem recolheria o lixo. Também confessou que antes de apaixonar-se por “ Dick”, como ela o chama, apaixonou-se pela mãe dele, Marjorie, uma mulher fenomenal. Não é a toa que Presidente Hinckley por mais de três anos levou-lhe flores no túmulo semanalmente! Sempre imaginei o encontro dos dois... deve ter sido emocionante. Contaram-nos também de um garotinho que na fila perguntou ao segurança “Será que ele já encontrou Néfi?” Que bênção o testemunho que temos de que manteremos essas associações familiares e mesmo de amizade na eternidade...
No retorno de Ijuí ainda encontramos tempo para uma caminhada no Bosque da Universidade, nosso lugar preferido aqui. Ficaram felizes com a oportunidade. Jantamos numa churrascaria, eles atolados no sistema de rodízio, sem tempo para pensar. Lanche leve na terça, para compensar, com torta de abobrinha e sanduíche ônibus da Carla, após as reuniões em Alegrete.
Devo dizer que a melhor parte foi a reunião com os líderes da Missão, de Zona e de Distrito. Portaram-se maravilhosamente bem, entusiasmados, prontos a aprender mas principalmente, tivemos a chance de ver que vestem a camisa do Presidente Myrrha, dispostos a fazer qualquer coisa que forem mandados, imbuídos do mais puro desejo de obedecer e acertar... Uma geração especial está se formando. Na verdade, mais da metade chegou depois de nós (72 em 136 para ser exato), o que é uma renovação muito alta, mesmo considerando que já temos quase 8 meses aqui e esses tem portanto mais a nossa cara. Eles ficaram felizes de ver a alegria que usufruímos por estar juntos e como os missionários se sentem a vontade conosco e nos amam. Ela particularmente deu-me conselhos muito bons, ficando impressionada com minha responsabilidade de treinar as mulheres das organizações auxiliares dos 5 distritos que temos. Foi Presidente de Missão em Salt Lake City, menos de 10 quilômetros de sua casa original, oitenta Estacas, um Distrito especial. Foi interessante quando relatou que na véspera da designação, o pai ligou para contar-lhe que sabia que ele tinha grande esperança de ser designado a Alemanha, onde servira quando jovem (o próprio Gordon B Hinckley à época Assistente do Quórum dos Doze contendo-se no desejo de que o filho fosse a Inglaterra, mas ausentando-se da sala no momento da designação), mas que eles ficariam bem mais próximos, o que revelou-se importante quando Marjorie faleceu não muito depois. Só não faziam idéia do quanto seria esse mais próximo!!!
A noite familiar na terça, logo após a visita de um de seus ex-missionários morador aqui de Santa Maria, foi especial. Ela nos relatou da conversão do pai aos 88 anos de idade. Era instrutor de tênis e colecionou uma prateleira inteira de Livros de Mórmon oferecidos pelos amigos. Ele falou-nos de como obedientemente a mãe “esperou” que as reuniões da Conferência Geral de Abril de 2004 terminassem para então falecer numa quinta feira, permitindo que seu amado marido desincumbisse-se de suas funções. Estávamos lá com os meninos e me lembro bem da consternação que tomou conta de todos. O resultado foram três dias de deleite espiritual e combustível suficiente para tocarmos nosso trabalho com maior afinco.
Continuo me assustando com as diferenças culturais aqui do sul. Liguei em um laboratório para saber quanto tempo de jejum para um exame de sangue, e se podia tomar água. A resposta foi imediata: água sim, chimarrão não. Como se não fosse óbvia a diferença…
Sábado passado voltei a Quarta Colônia, desta vez para o Festival da Uva. De festival não vi muito, mas deram-nos a dica de ir a uma fazenda onde no parreiral colhemos nossas próprias cestas de uva Isabel. Absolutamente deliciosas! E a R$1,50 o quilo. Trouxe seis quilos, imaginando ser muito, mas arrependi, até porque a duração delas na geladeira foi infinitamente maior ao que estou acostumada.
Diogo segue bem, apaixonado e estudando bastante. Também tem feito progressos no trabalho de tradução na BYU Television onde todos o adoram. Recebeu inclusive uma proposta de contrato para dois anos… recusou pois o plano seguinte é a missão. Está muito feliz, posso sentir no tom de voz. Nat está seguindo nessa semana para o Rio de Janeiro para a cerimônia de entrega da medalha de ouro a que fez jus na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Está num entusiasmo só! E com razão. Esses meus filhos…são brilhantes! Não posso deixar de reconhecer isso publicamente. Eles vão gostar… sempre reclamaram do meu grau de exigência.
Os missionários continuam a me fazer rir. Estão cada vez mais convencidos do poder do Lysoform e descobrem infinitos usos, inclusive matar formigas na cozinha!!! Semana passada com a disponibilidade de espaço no jornalzinho da Missão saíram-me com o artigo abaixo, que já fez muitos rirem:
Testemunhas Especiais do Lysoform !!!
- Eu tinha muitos problemas com companheirismo, até que eu encontrei Lysoform !!
- Eu não tive uma experiência sobrenatural, nenhum anjo me apareceu, a casa não tremeu, mas eu acredito. Ao ouvir Sister Myrrha eu senti. Prometo que se colocarem à prova com um coração sincero e real intenção, vos será manifestado o mesmo:
O Lysoform é Verdadeiro!!
- E aconteceu que enquanto eu estava sendo assim atormentado e enquanto eu estava perturbado pela lembrança de tanto mau-cheiro, eis que me lembrei também de ter ouvido Sister Myrrha profetizar aos missionários sobre a vinda de um Lysoform para tirar os fedores da missão
- Assim também o sabão em pó se não tiver Lysoform é morto em si mesmo
- É melhor morar em uma terra deserta, do que morar com um missionário que não usa Lysoform
- Ora Sister Myrrha desejava que o Lysoform fosse utilizado por toda criatura, porque não podia suportar que qualquer alma humana fedesse
- Sister Myrrha qual é o grande mandamento na lei?...
- Pelos seu cheiro os conhecereis...
- E agora sendo que desejais entra no rebanho de Sister Myrrha e ser chamado seu povo(...)vos digo que: Se for esse o desejo de vosso coração, o que vos impede de usar Lysoform ?
Um beijo a cada um de vocês, no coração!!!














