Capítulo 13
Ei gente!
O tempo passou mais rápido nesse começo de ano e ainda não consegui me organizar para escrever, sabendo que estou atrasada na minha intenção.
As atividades aqui continuam as mesmas: missionários, conferências, visitas a ramos da Igreja mais distantes e menores. A última cidade que visitamos, domingo passado, foi Panambi, o terceiro maior pólo industrial da indústria metalúrgica do Rio Grande. É pequena, mas organizada e limpa. A arquitetura de inspiração germânica revela a história de muitos de seus habitantes. Um PIB elevado, muitos técnicos e uma unidade pequena, mas em crescimento da Igreja. Demos com um casal que há muito tempo atrás pesquisou a Igreja e por influência de um irmão da esposa resolveu adiar seu batismo. Nesse meio tempo o pai dela faleceu, um homem honrado, segundo a filha, que teria gostado muito de fazer parte da Igreja. Agora eles estão de volta recebendo as lições dos missionários e tem pressa. Achei graça quando me pediram um Livro de Mórmon e eu pensei: “Bah! (bem gaúcho, né?)... o que esses missionários nossos estão fazendo que ainda não deram o Livro a eles?” Mas tive que me retratar ao descobrir que só os haviam visitado uma vez, com a mensagem sobre Jesus Cristo. Instruímos os missionários a ensinarem-nos todos os dias dessa semana e o batismo será então finalmente nesse domingo, quando estaremos por perto e poderemos participar. Eles tem fome de conhecimento... É tão bom encontrar pessoas sinceras assim!!! E ela já avisou: “virei para trabalhar.” Que bom! Vamos assistir mais um milagre da conversão de um coração. E teremos tempo de ver os frutos doces que colherão em suas vidas. As filhas casadas estão interessadas, bem como alguns amigos, a quem ela já apresentou os missionários. Falei ontem com ela ao telefone e sua voz irradiava alegria. Tenho conversado com alguns de nossos ex-missionários sobre o que mais sentem falta ao chegar em casa. Um deles me relatou que são as duas horas de estudo do Evangelho por dia, mas outros dois me disseram que a maior saudade é de sentir o espírito mudando o coração de uma pessoa para que ela mude a sua vida segundo os valores divinos. Interessante... assistir esse milagre e ser parte ativa dele. Sugeriram-me experimentar pessoalmente, estou tentando. Embora não o faça como os missionários, volta e meia nos envolvemos mais com uns e outros, como Liziane, Hilga, Rafael e Miriam, Deise e Evaldo...



Fim de semana passado reunimos todas as sísteres da missão para uma reunião no P-Day (Dia de preparação) delas. Isso implicou em que todas dormissem de domingo para segunda em Santa Maria. Invadimos a chamada " Casa Grande" , dos assistentes e secretários e que tendo 28 camas acomodava nós 22, Nathália festeira inclusive. Eu lá, partilhando esse momento único com elas. Li parte dessas mensagens , falamos de muitas coisas. Comemos pipoca. Elas animadas se conhecendo. O contato entre elas é muito restrito e por vezes passam a missão inteira sem se encontrar. Imaginei que depois de 9 meses na casa, Jud Kennedy saberia me dizer qual o melhor colchão, mas me enganei. Seu colchão era péssimo e só comecei a noite nele, contando com a complacência da Nat em trocar comigo. Explico agora sua dor nas costas. Os élderes deixaram bombons trancados dentro de uma necessaire com um código de adivinhação das escrituras. E, secretamente, colocaram um gravador ligado registrando nossas conversas. Mas logo descobrimos o segredo. E foi engraçado vê-las indignadas, mas divertidas gravando outra mensagem complementar para agradecer a gentileza.
Nessa mesma noite descobri por uma mensagem da Camilla no celular que o Presidente Hinckley, presidente da Igreja já há 13 anos, falecera aos 97 anos. Mais uma perda nesses dias de aprendizado de ficar sem. Ele foi o profeta da minha maturidade e com amor e visão inigualáveis, estabeleceu Templos em todo o mundo e o Fundo Perpétuo de Educação, que me emociona, e proporciona a membros da Igreja de países em desenvolvimento a obtenção de formação profissional. Uma bênção da qual muitos de nossos amigos tem se beneficiado. Sua voz forte e ainda assim gentil vai fazer falta entre nós. Acostumei-me a ansiosamente ouvir suas diretrizes e conselhos a cada Conferência Geral e reconhecia nele um homem de Deus. Seu filho, Elder Richard Hinckley virá nos visitar por 3 dias em fevereiro e planejei tantas mensagens de amor a serem enviadas a ele... ficarão contidas, ainda que meu coração se conforte na certeza de quão bem ele está , em companhia de sua amada esposa Marjorie. É como com a Vó Naná, não há sofrimento na morte de um justo, exceto aquele despertado no tempo da saudade por nossa visão limitada e canhestra.
No dia seguinte quisemos fazer as sísteres sentirem-se mulheres e tivemos, além de assuntos espirituais e motivacionais, sessões de depilação, maquiagem e massagem. Também fomos ao Restaurante Val de Buia, para um típico "mangiare italiano". Localizado na região da Quarta Colônia Italiana, permitiu-nos visitar Vale Vêneto, cidadela encravada nas montanhas , tudo muito rápido, mas o suficiente para inúmeras fotos. Infelizmente o pneu da Zafira furou na estrada de terra e Rodrigo sozinho teve que se encarregar da troca, enquanto eu levava 11 delas na Hillux no passeio.
Ainda estranhamos as expressões gauchescas. Outro dia ri muito quando Dutra declarou que os filhos adotaram um pintinho " recém descascado" que estava sendo criado na " rua" , que aqui é na verdade qualquer lugar fora de casa. Ou dizem "me bandeei", para explicar que saíram fora. E calouro universitário é bixo, com x mesmo. Tem também o cara que "mora prá fora", ou seja, no campo. Real aqui é pila. Custou 10 pilas... ou 10 pila, sem o plural mesmo, que raramente é usado. Um livro da história do Rio Grande do Sul me explicou: “Pila vem de Raul Pila, libertador de 1930 que se levantou contra Getúlio pela constituição e acabou exilado no Uruguai.” Numa situação econômica difícil , os amigos faziam vaquinha aqui para mandar-lhe algum dinheiro. Daí a expressão.
Fiquei impressionada com quantos presidentes do Brasil e homens de importância nacional esse estado nos forneceu: Getúlio Vargas, Leonel Brizola, João Goulart, Ernesto Geisel, Flores da Cunha, Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Assis Brasil, Pinheiro Machado... A coluna Prestes, do então capitão Júlio Prestes, em 1924 saiu daqui da região missioneira, precisamente de Santo Ângelo, andando 25 mil quilômetros Brasil adentro e até cativando um irmão de Vó Naná (maranhense, olha só!) que , desligando-se irregularmente do Exército, passou boa parte da vida isolado da família, história essa nunca bem esclarecida. O interessante é que o livro chama atenção para o fato de que para todos os problemas políticos o Uruguai estava a um passo e foi para lá que todos se bandearam nas dificuldades. Não é à toa que até hoje a fronteira, seja em Quaraí/Artigas ou Livramento/Rivera, é super tranqüila e brasileiros e uruguaios " se dão" , vão e vêm sem constrangimentos. A Fronteira da Amizade, como fazem questão todos de ressaltar. Bom para quem se aproveita da isenção de taxas de importação dos produtos assim disponíveis facilmente nas muitas lojas dessa fronteira. Perfume, chocolate, coisas para casa, azeite, biscoitos, candies todos dos EUA, queijos, eletrônicos. Com a Argentina não é assim, a fronteira é aberta e há compras a fazer, mas parece haver muito mais ressentimento e restrições. Tanto é que não entramos com nosso carro lá, que tem placa de São Paulo e pode ser visado pela polícia argentina.
Resolvi ler meus diários antigos e comecei desde o primeiro, prestes a fazer 15 anos, mas que chatura!!! Eu era chata demais... coitado do namorado, irmãos e amigos na época... acho que felizmente aprendi muito. Espero que meus escritos de agora não sejam tão repetitivos quanto eram... um assunto só. Mas ainda assim pinço coisas interessantes também e vejo como meu comprometimento com o evangelho sempre foi presente em minha vida: Distribuía Livros de Mórmon para taxistas, era presidente das moças do meu ramo aos 14 anos, era muito ativa no Seminário Diário com João Bueno como professor. Vejo que mantenho as amizades e a maioria deles continua presente em minha vida. Também cometi muitos erros de avaliação e alguns em quem apostava não estão mais na nossa convivência. Tem um dia engraçado em que relato que nada aconteceu, exceto que coloquei meu presidente de ramo para correr... Explico: Havia o que se chamava reunião de oração, para começar uma reunião sacramental. Já eram passados 15 minutos do horário e nada dele, o líder, se manifestar. Bem saída e atrevida, como sempre fui, relato que fui atrás dele, coloquei todo mundo para dentro da sala e feliz conto que nos atrasamos só 20 minutos, ao contrário de outros domingos em que a reunião costumava começar com quase 1 hora de atraso. Imaginem! Progredimos muito! Em outra ocasião conto que Tia Lúcia e os filhos de Brasília estavam em casa e Delano, na época com 9 anos, todo dia de manhã me levava o jornal para ler na cama, porque sabia que eu gostava. Gracinha, não é? Falo da Michelle, minha irmã , com 3 anos, que vendo-me com namorado, começou a chamá-lo de "nosso namorado" ou papai chamando Rafael recém nascido de "Mucuim"... Cláudia e Cristina aparecem nos relatos do Colégio, amigas ainda hoje, eu falando da Igreja para elas, deixando-as impressionadas com o poder da oração. Ainda não funcionou, né meninas? Há até uma festa na casa do Célio Firmo, também amigo chegado da escola, cuja irmã Francis foi minha primeira freguesa quando resolvi produzir conjuntos de malha bem coloridos, a época chamados "Leggings", Vó Naná encarregada do corte das calças. Já estou no terceiro volume de 200 páginas, felizmente percebendo-me bem mais madura às vésperas de virar 16.
Nathália nos deu grande alegria ao ser medalhista de ouro nas olimpíadas de Matemática das Escolas Públicas, somente 13 alunos no estado. Receberá a premiação no Rio de Janeiro no dia 26 de fevereiro, com todas as despesas pagas e ainda será incluída num programa de bolsa de pesquisa com orientação de um professor da UFSM por um ano ( a partir de julho). Fico feliz que meus dois filhos tenham, por mérito próprio, se beneficiado dessas oportunidades, o dinheiro valendo muito menos que a convivência no meio acadêmico. (Diogo participou por um ano do Provoc, trabalhando em um Laboratório de Física da UFMG onde criava experimentos... amava!)
Diogo que jurava inocência e desinteresse em namorar sucumbiu aos hormônios e ao fascínio de Mariana Itinose, filha do Presidente Itinose, da Missão Manaus e irmã da grande amiga Melina. Isso logo nos primeiros dias do semestre! Faz parte. É uma época tão interessante! Fico entusiasmada com sua vida agora, embora distante. Já disse que ele vive meu sonho. Daqui tentamos acompanhar o juízo e o bem estar emocional. Mas até sofrer de amor faz parte do jogo, né filhão? Falamo-nos praticamente todo dia...
Rodrigo continua o mesmo trabalhador de sempre. Age muito mais empiricamente que eu, mas as coisas acontecem e funcionam sob sua direção. Acho que nos equilibramos e os missionários admiram-se de nossas diferenças, ajustadas muitas vezes no pau a pau, centímetro a centímetro. É amado e admirado pelos missionários, que o vêem ora como pai, ora como padrasto. Só vai ,tchê!, parece ser seu lema para viver a vida simples.
A temperatura está muito agradável esses dias. Tivemos no início do mês uma semana realmente muito quente, mas parece que fomos premiados com um verão ameno. Que continue assim!
O que você mais gostou ao ler esse e-mail? Quais os seus sentimentos a respeito? Quero ter notícias de vocês. Pouca gente me mantém informada e isso não é justo. Vocês ficam sabendo de detalhes da nossa vida aqui!!! Mereço uma recíproca. Sintam-se beijados e abraçados. Amamos vocês!










