Capítulo 12
Feliz ano novo a todos ! Espero que tenham se divertido e preparado as baterias para esse ano que mal começou e já está na metade do primeiro mês... Como o tempo está passando... Diogo fará 18 anos segunda agora, longe de nós. E se tudo der certo, fará 19 e 20 anos também longe de nós...na missão. Mas a verdade é que tenho um filho de 18 anos. É muito! E as vezes tenho receio de não ter visto passar assim bem devagarzinho... como devem ser vividas as coisas boas da vida.
O calor chegou aqui de vez. Tivemos 3 dias com temperaturas acima de 40 graus... uma loucura. Quinta passada numa reunião em Livramento achei que fosse sucumbir. Rodrigo falando aos missionários e minha cabeça ia e vinha, meio dormindo... Elder Thomas ao meu lado, de quando em vez me cutucava... A capela até tem ar condicionado, mas não se pode ligar porque, por insuficiência da concessionária, a energia de 3 quadras cai... Dá para imaginar? Assim ficamos cozidos, numa capela que tem poucas janelas e ventiladores que exaurem ao invés de ventilarem... Nem acredito! Não saímos de casa. O ar ligado o dia inteiro nos deixava confortáveis. Fico feliz que tenhamos ar em toda a casa, até na cozinha e agora compreendo o porquê. Até me acostumei a dormir com ele ligado... quem diria...



Moramos numa região "bagual", caipira em outras palavras. Há cidades em que todo o comércio fecha ao meio dia e só reabre as três da tarde. Em Quaraí, por exemplo. É o horário da cesta deles... todo mundo na caminha!!! Se resolver comprar coisas para almoço nessa hora, amém! Vai ficar com fome até às três. Também às 8 da noite já tudo fechou de novo. Aqui mesmo, em Santa Maria, não tente comprar parafuso, ferragens, tinta ou acessórios de computação, ou móveis, ou buscar um conserto numa sapataria... todo mundo fechado de meio dia às duas. Não há nada que feche depois de 10 da noite, incluídos os supermercados. McDonald’s eu acho que dura mais que isso. E restaurantes e bares. No almoço, se procurar por comida depois de 13:30 dificilmente vai achar algo. Os restaurantes fecham mesmo!!! Por outro lado, temos vantagens: paro o carro na porta da fisioterapeuta, ou da manicure, na depiladora, na porta do dentista, da loja, do banco. Trânsito só na Presidente Vargas no ápice das 6 da tarde. Ou nas saídas e entradas da cidade, quando todos os carros vão a 60 km por hora, na faixa (estrada), testando nossa paciência urbanóide.
A vinda do Diogo... foi bem. Foi ótimo estar com ele. Curti de montão. Beijei, abracei, dormi encolheirada, toda noite visitava a cama dele e dormia um pouquinho agarrada por lá. De manhã ficávamos os 3, às vezes Rodrigo também, fazendo chamego até tarde... Disse que não pretende namorar esse semestre. Sei lá...Espero que não mesmo, já que está se preparando para sua missão, por 2 anos, provavelmente a partir de agosto . Foi embora do sul na quarta, dia 02, (em definitivo para Utah no dia 05, depois de 4 dias com amigos e avós em BH), confessando-me que se pensasse muito não iria... é meio solitário mesmo. É assustador para um rapaz que nem ainda fez 18 anos. Ele é corajoso. Eu o admiro tanto!! Está feliz na BYU. Decidido a estudar bastante, pensando em tirar carteira de motorista, trabalhando na BYU Television, porque diz que lá está sempre aprendendo, fazendo amigos e relacionamentos para toda a vida. Até vai fazer uma festa na sexta que vem, com Lucas Simplício, filho do ex- presidente Simplício, da Missão Ribeirão Preto, onde fizemos um Tour de Missão em 2005 (o mundo da Igreja é mesmo muiiiito pequeno...) para comemorarem juntos o aniversário. Já imaginaram o meu assanhamento para estar lá? Estou mal me contendo...



Aqui na missão conseguimos o chamado "one time request" , que é quando liberam um dinheiro a mais para renovação das casas dos missionários. Colchões novos pra toda a missão, 30 máquinas de lavar (mais da metade das casas terão... Elder Wageman e Elder Madsen não se agüentam... e me amam ainda mais!!! Tenho gosto em ligar para anunciar a chegada do sonho de consumo deles. Há sempre comemoração e declarações de amor!) Também os varais de chão (para serem movidos no inverno quando nada seca e temos que buscar qualquer raio de sol), capas de colchões, travesseiros bons para todos, cadeiras estofadas de estudo, quadros brancos para as metas, chuveiros de 7700 w para o inverno (a conta de luz vai subir...), algumas geladeiras e fogões... facas e panelas de pressão, para fazê-los se alimentarem melhor. Aliás, fiz uma grande descoberta: eles comem muito a hora do almoço porque comem ali as 3 refeições diárias de uma vez. É lógico que têm uma congestão... e dá-lhe, melhor, dá-me telefonemas com dores abdominais, diarréias, mal estar, etc. Queridas irmãs: se quiserem alimentar bem um missionário, dêem a ele um almoço satisfatório mas não insistam que comam a passar mal. Contribuam com um lanchinho leve para o meio da tarde, uma fruta, um sanduichinho, um docinho... Faria isso agora que sei como as coisas funcionam!
Nosso Natal... recebemos 7 missionários no dia 24 a noite, inclusive Elder Gatto, com direito a amigo oculto tipo elefante branco (e a disputa foi por uma espada de pirata e um tamaguche...guris!). Antes disso, à tardinha, saímos para cantar como sempre fazíamos aí. Cantamos em uns 15 lugares, de viúvas solitárias a pesquisadores e para a família do bispo Dutra e até para um grupo reunido em torno de um Papai Noel na rua. Recebemos aplausos, nossa família e os 5 missionários do staff (assistentes e secretários). Foi bom manter a tradição, embora esse ano tenha sido a vez da Nat recusar-se a participar (Diogo teve seu tempo...). Ficou com a parte do registro fotográfico, entrando muda e saindo calada. No dia 25 outros tantos (uns 12) passaram a tarde para comer um panetone e tirar fotos na árvore de natal. Fico feliz que tenhamos ligado para as bisas e tenhamos cantado para elas também. Entre Natal e Ano Novo fomos a Ijuí, para um hotel de águas minerais. Passamos um bom tempo na piscina e tirando fotos. No dia seguinte visitamos Salto de Yacuman, o maior salto horizontal do mundo. Tem quase 2 km de extensão, numa altura de 12 m na seca do Rio Uruguai. Está na divisa com a Argentina e para chegar lá passamos por paisagens maravilhosas e 30 km de estrada de terra.
No ano novo fomos a Poá. Não fizemos muita coisa, mas fomos a dois Shoppings, comemos fast food e milk shake de Ovomaltine (saudade!!!) , tomei muita água de côco, que amo e não encontro por aqui, fomos ao cinema ver A bússola de Ouro. Passeamos de barco pelo Guaíba (o máximo que vi de muita água- mineiros adoram praia no fim do ano...), ficamos juntos no hotel fazendo nada. Na verdade aproveitamos que tínhamos que levar Diogo ao Aeroporto... A noite mesmo do 31 passamos em um restaurante tradicional, só nós 4 , com direito a queima de fogos.
Duro foi o dia que Diogo se foi para mais 6 meses. Mal ele saíra e recebemos o telefonema da mamãe avisando que Vó Naná se fora de vez. Tão previsível na idade dela, mas tão de surpresa ao mesmo tempo. Essa tem sido uma época de perdas. Dois dias antes comentara com Diogo que nunca perdera alguém muito próximo e que todos esses sentimentos que me atolaram em novembro e dezembro eram parte de um aprendizado importante para a vida. Mal sabia eu que logo seria chamada a usar esse aprendizado para adaptar-me à ausência de alguém a quem me descobri tão chegada. Ouvi tantos comentarem sobre nossa ligação, uma ligação que talvez não percebesse tão claramente, mas que se manifestava na quantidade de vezes que falava dela, como me relataram. Era uma mulher admirável e deixou-me por legado atributos de fé , serviço, fidelidade, altruísmo, paciência, perdão, ponderação e muito mais. O que mais me tocou na longa viagem de Porto Alegre a Santa Maria logo depois da notícia, foi a sua capacidade de virar a própria mesa e reescrever sua história, ao ponto de parecer a muitos, ter passado pela vida sempre em alegria e santidade. Minha vida diária é permeada de coisinhas feitas por ela: porta guardanapo, minha bolsa de ir ao Templo, meu envelope, minha colcha de retalhos que deu-lhe tanto trabalho, etc. etc. Mas minha alma tem mais dela do que toda essa vida externa e vou sentir muitas saudades.



É bom ter Elder Gatto por perto pela primeira vez em Santa Maria. Outro dia veio almoçar num P-Day e ficou para ver um filme. No dia que a Vó Naná morreu veio me visitar, bonitinho, aquela que ele sempre chamou de Bisa. O ciúme dos missionários aumentou e alguns estão sugerindo que ele pode fazer o que quiser que o "tio" protege... uma injustiça de alguns poucos... Se somos alguma coisa na vida dele está mais para pai e mãe do que para tio, que aliás ele nunca nos chamou... Todos os tios dos meninos são tios, os avós são avós - e nós, o que somos? (heim, meninos... de vez em quando me pergunto meio enciumada...) E porta-se muito bem, com uma distância inimaginável, apesar de beijar minha mão quando se despede de mim... É o máximo da formalidade que conseguimos manter.
Nat fica entusiasmada nesses dias com Gil por perto. Tem descoberto que os amigos do Diogo são também seus amigos. Sente falta deles como sente das amigas. As vezes acha-se entre os missionários, mas logo descobre que não é mesmo a mesma coisa. Ela está bem, feliz essa semana na companhia de Dona Emerita e Paula, sua prima filha da Norinha que nos alegrou com a presença aqui. Pena que com o calor só ficaram no ar condicionado jogando canastra ou na piscina. Mas Paula é um doce e foi muito bom para ambas. Quinta fizeram compras em Rivera, no Uruguai, as 3 muito faceiras em gastar dinheiro... mal da família de lá... (rsss...) . Em dezembro recebeu uma premiação na Olimpíada Brasileira de Matemática, tendo recebido medalha de ouro e ficado em segundo lugar no estado do Rio Grande do Sul entre alunos das escolas públicas. Um feito e tanto! Ficamos orgulhosos. Ela também está brilhando, além de estar linda mesmo. Uma gatinha. Só me chama de neném, e adora um carinho. Mas as variações de humor da adolescência prosseguem, desafiando nossa paciência. É ótima quando "está de humor"... já diria eu na idade dela.



No dia 24 de janeiro três de nossos melhores amigos de BH estarão partindo para uma missão de tempo integral. Dois irão para São Paulo Norte, Franklin e Lucas e um para Florianópolis, Stéfano. Nossa alegria é ainda maior porque esses três se juntam a dois outros grandes amigos que agora servem na São Paulo Sul, Érico e outro aqui conosco em Santa Maria, Gil Filho. Exceto Franklin, que já era membro e foi integrado à "turma", eles são nossos frutos missionários diretos, trabalhamos na conversão deles, apresentamos a eles o evangelho. Há anos esperamos por esse dia glorioso na vida deles, dia de renovação do compromisso de servir a Deus. Nossa ligação não se resumiu a esses contatos, mas todos 5 foram meus alunos no Seminário, amigos de nossos filhos e nossos amigos mais fiéis quando estivemos de mudança para cá. Nossos corações estão entrelaçados pela maravilhosa teia do evangelho e do amor de Cristo. Vislumbro para cada um deles a alegria que se tem por viver o evangelho. Vislumbro e desejo a cada um deles o mesmo futuro brilhante e completo que desejo a meu filho Diogo. Ele deverá ser o sexto nessa lista, quando sair em missão no ano que vem. Fico pensado no proceder de Deus, meus amigos na missão, ao mesmo tempo que eu mesma... Quando poderia imaginar isso? Uma grata surpresa preparada pelas mãos do Mestre. Que maravilhoso!!!
Beijos a todos , no aguardo de notícias de vocês.
Alessandra Choairy

