Capítulo 11
Meus amigos e familiares!!!!
O tempo anda voando e estamos já prestes a fazer 6 meses aqui. Sentimos saudades mas estamos bem. Há muito com que ocupar nossa mente e mãos... Uma das coisas marcantes é a quantidade de tralha que transportamos. Antes achava que ter uma Hillux seria bastante interessante e confortável. Agora vejo que um caminhão é essencial!! Não há dia que não subamos e desçamos com caixas e mais caixas, um eterno levar e trazer e distribuir e redistribuir... O tour de bagulhos da missão continua abençoando os desprovidos e os em excesso. Aqui nada se perde...
Outro dia recebi uma ligação inusitada: Nem acredito que um paulista da capital (Elder Abe) e um americano (Elder Mellor) lá de Quaraí juntos me ligaram para dizer que tinham um sapo dentro de casa. E, melhor de tudo: era o primeiro sapo da vida do brasileiro... Já o americano assumiu já ter visto outros, mas nunca dentro de casa. Enquanto falava, o sapo pulou sobre o fogão... E depois sumiu... Estava um apavorado, outro rindo sem parar, balançando a câmera enquanto tentava filmar. Ao final me confessou: “Sister, desculpa se liguei por isso, mas é que está demais... Já tivemos 2 baratas, 2 aranhas e agora um sapo... Como lidar com isso?” A sorte é que prevejo os problemas deles e no jornal semanal que temos mandei uma mensagem sobre dedetização. Parece inspiração!! Durante a semana encontrei-os e vi o filme que fizeram. As vizinhas mobilizadas, uma entrando na casa deles e... tocando o sapo com uma vassoura. Heroína do dia... Ri outro tanto. Outro sapo voltou dias depois, felizmente só no quintal.
Essa semana Elder Crose, secretário financeiro, foi embora do escritório. “Sou mao de vaca (assim mesmo, sem o som nazal...), não posso negar!” Era o que sempre dizia quando confrontado com o fato de ser o financeiro. Deseja ser cineastra e montou um filme da missão, com fotos das cidades, de batismos, minhas, deles, da paisagem do sul, fotos engraçadas, e sérias, todas as capelas da região. Um bom registro do que temos por aqui em 2007. É o último dos que já estavam aqui quando chegamos, exceto Elder W. Ferreira que chegou conosco para ser treinado como Secretário Executivo. Fiquei há uns dias observando seu último dia no escritório, ele animado e ansioso para ir para São Borja, “para o campo missionário”, como eles dizem. Esvaziou-me um pouco mais, de novo... É um menino muito bom, puro e obediente. Vai fazer falta perto de nós.
Semana atrasada tivemos o Mission Tour com Elder e Sister Ellis. Ele, Setenta Autoridade Geral é conselheiro na Presidência da Área Brasil. Um Mission Tour tem o objetivo de motivar os missionários, acompanhar o presidente e sua família, dar orientação e instrução. Quando Presidente Myrrha era Setenta de Área tivemos a chance de realizar três: Rio de Janeiro com Presidente Barreto, Ribeirão Preto, com Presidente Simplício e novamente Rio de Janeiro ainda com Presidente Barreto. Uma experiência e tanto... ver todos aqueles missionários, anjos de Deus, para mim novidade àquela época, em seus melhores ternos e roupas, ansiosos por ouvir nossos conselhos... uma visão celestial que agora tenho tantas vezes entre aqueles que são os meus filhos aqui. E o mundo é mesmo pequeno: a filha do Presidente Barreto, Débora, é intercambista na mesma escola da nossa sobrinha Camilla em Sandy, Utah... são amigas...



Quanto ao Tour de Missão, Elder Ellis e Sister Ellis chegaram na terça, às 11 da manhã e vieram almoçar conosco. Uma pessoa estava aqui me ajudando desde segunda, uma vez que toda a preparação para a chegada deles havia ido por água abaixo quando em visita "extra oficial" ao nosso apartamento para troca das borrachas da geladeira deixaram a mesma desligada... Ao chegarmos no domingo encontramos tudo estragado, fermentado, desmanchado... peito de frango empanado, empadão de frango, molho de carne, molho de camarão, iogurtes, etc, etc, etc... Tudo para o lixo... e eu sem Fernanda por perto para refazer. Ainda assim resolvi servir um almoço e comecei bem cedo na terça. Para ir ao Aeroporto deixei essa senhora encarregada de temperar o salmão e fazer o arroz... Quando cheguei, desconfiei que o peixe estaria salgado, mas não conferi... que arrependimento!!! Já o arroz tinha uma cor amarelada e um gosto estranho. Ao investigar o que ela usara, descobri que havia sido bicarbonato, no lugar de sal... refiz o arroz... Para compensar, o lanche da tarde fez sucesso. Sister Ellis adorou aquela berinjela árabe que faço no forno. Ela comeu um pote!!! Falam bem o português, porque há coisa de cinco anos estiveram em São Paulo fazendo o mesmo trabalho que nós aqui, ele também tendo sido missionário no Brasil na década de 70.



Na quarta bem cedo fomos a Ijuí e a Conferência foi boa demais. Tínhamos toda a Zona de Santo Ângelo e Ijuí. Elder Ellis fala muito bem e entusiasma os missionários; e a mim, que tenho que tomar cuidado para não ser a primeira da classe, respondendo à frente de todos. (típico!) Eu falei 20 minutos e conversamos sobre ensinar pelo espírito e obter participação efetiva. “O que ensinarei hoje” (foco no ensino) x “o que ajudarei meus pesquisadores a descobrirem que precisam saber” (foco no pesquisador). Os missionários ficaram faceiros de ver que sei falar de outras coisas que não casa e limpeza. Rodrigo contou de sua conversão, de seu batismo, de momentos sagrados para ele. Sister Ellis falou de termos uma boa viagem enquanto estamos na missão. Fazer desse tempo um bom tempo. Elder Ellis usou as escrituras muito bem. Usou I Néfi 3:7 (sem antes preparar...) para ensinar que Deus vai antes de nós na área geográfica a que somos designados... e muitas outras mais. Vai conversando e abrindo as escrituras. Muito gostoso de participar...
Nesse dia saímos de lá ainda dispostos a ir às Missões e Sister Ellis amou. Eu e ela ouvindo explicações da guia enquanto Elder Ellis e Rodrigo conversavam...Típico!!! Ainda passamos em Santo Ângelo para comer na Kemper’s Haus, aquele lugar de chocolate que Presidente Mack gostava e que é realmente muito bom. (ops! Típico!!!) Na volta matamos um cachorro branco... tão triste! O problema foi que chegamos em casa quase às 11 horas para sairmos antes de 7 de casa no dia seguinte para Alegrete. O mesmo programa e um almoço excelente na capela, mas feito por um bufê. Sister Ellis comprou um traje gaúcho completo para um dos nove filhos. E na volta, mais um pássaro suicida na nossa conta... Foram uns 7 nessa semana de viagem, eu sempre muito aflita quando acontece. Chegamos ainda a tempo de uma caminhada pela trilha sombreada da universidade (UFSM), onde temos caminhado sempre que possível na nossa agenda apertada. Interessante ver Presidente e Sister Ellis em roupas de exercícios. Na sexta, tivemos a mesma reunião em Santa Maria, tendo eles seguido viagem em seguida. Eles são ótimos, fáceis de agradar, boa conversa, sensíveis a nossos problemas... Foi um prazer a companhia deles nesses quatro dias aqui em casa. Aprendemos muito.
Dia desses fiquei pensando em como fui preparada ao longo dos anos para estar aqui... Lembro-me de quantas vezes em minha juventude pensei que as habilidades apreendidas do Inglês não tinham muito sentido em minha vida. Ficava a imaginar quando as usaria... também o talento mal desenvolvido de tocar piano ou de falar em público, até de ensinar ou de haver estado em terapia. Mesmo a visão de mundo, a percepção e aceitação das diferenças que desenvolvemos nas muitas viagens felizes que fizemos como família. Achava que tudo somente faria parte de meu aperfeiçoamento pessoal. Mas nos planos de Deus nada nos vem gratuitamente. Ele espera que usemos essas habilidades para abençoar a vida de outros. Como sou grata aos meus pais, Newton e PIninha , por terem aberto a mim possibilidades infinitas se fosse meu desejo , de desenvolvimento e aperfeiçoamento. Além dessa medida, descubro-me portadora de saberes nem imaginados. Costuro, aconselho, averiguo problemas emocionais... Na parte de saúde ,da qual sou responsável pelos 140 missionários, pego-me dando esclarecimentos e orientações quase profissionais (não se ofendam; os médicos...), mas tão consistentes e coerentes, que me assusto. De onde , em minha cachola, tirei isso?
Ontem tivemos um dia maravilhoso. Numa exceção, reunimos toda a missão para uma Conferência de Natal em um lugar encantador, com represa, campos de futebol, vôlei, ping pong, sinuca, totó... nada para fazer!!! Alias, eles não tiveram nada para fazer , mas nós trabalhamos como gente grande. Ainda contamos com a ajuda do fiel escudeiro Dutra, aquele mesmo que seria, segundo Rodrigo ainda em BH, a solução de todos os nosso problemas aqui (e tem sido mesmo!). Gente que a gente pode contar! Ele, a esposa Beth, Fernanda (a minha fiel escudeira...), uma amiga solícita, Márcia Dias, que fez todas as 150 arvorezinhas de feltro que demos de presente... devidamente recheadas com hand sanitizer (gel para higienização das mãos) e doces americanos, trazidos por uma família querida e amigável.


Na verdade, isso só aconteceu porque essa semana foi de saídas e chegadas, semana de grandes emoções. Quinta a noite tivemos o jantar de despedida de 13 de nossos bons missionários. Alguns tão amigos agora que temos mais tempo de convivência... o grupo de Elder Hurst, um dos assistentes, rapaz tão fiel e comprometido. Ele e mais 12, inclusive Sister Messias , que teve problemas na coluna e não pode caminhar. (Sem Susie e sem Sally agora... para quem se lembra do discurso de Elder Holland que já citei aqui). Mas tivemos uma noite fantástica. Acho que posso dizer que foi a melhor das saídas. Tivemos um espírito muito forte e muita união entre nós. Cantamos hinos de Natal, conversamos, tiramos fotos engraçadas, declaramos amor, Elder Johnson filmou um monte... Rimos e choramos... E claro que comemos: mashed potatoes, ribs com barbeque sauce, torta de maracujá. Pão de queijo, arroz e salada, claro! Fico orando para que esses sentimentos não passem. Fomos um momento na vida deles, mas esperamos durar mais do que isso. Foi bom para mim. As duas últimas semanas tinham sido muito angustiantes, mas senti-me amada e querida. Sinto que começo a ser algo mais que uma “step-mother” de poucos meses na vida desses que saem a partir de agora.
Na sexta tivemos as chegadas, 4 americanos, um brasileiro e uma sister americana. Muito assustados, coração ansioso embora desejosos de servir. Interessante ver que no fim o coração descompassado é o mesmo entre os que saem e que chegam. O dia seguinte às chegadas é também de transferências e assim, metade dos missionários passariam por Santa Maria. Daí a chance de fazermos esse dia especial no sábado. Logo cedo, após a abertura, tiramos uma foto de toda a missão. Depois outra da turma que sai em 2008 e da turma de 2009. Só nós ficamos para 2010!!!
Diverti-me a valer. Nat parecia uma sister entre as outras, feliz e satisfeita. Rodrigo na bola com os meninos, orgulhoso de sua performance... Moleque, levou 300 balões para uma farra com água. Elder Corrêa, muito corajoso, molhou–me a primeira vez dos pés a cabeça. Aproveitei e entrei na onda... Fui inclemente!!! No calor de 37 graus era um alívio! Foi bom ver a obediência deles que às 16 horas estavam prontos de gravata e tudo para o encerramento. Cinco e dez todos os ônibus tinham saído, uma vez que a viagem para alguns foi longa... Mas o dia valeu demais, dia para não se esquecer!!!
Receberemos Diogo hoje. Que alegria!!! Sinto muito a falta dele, embora saiba que ele vive seus dias memoráveis. Teremos uma boa semana! Está agora mesmo agarrado em São Paulo. Sabíamos que a viagem seria dura... Tenta embarcar uma vez que perdeu a conexão por atraso em Dallas. Aqueles mesmos missionários nossos de sexta passaram a noite em Sampa e só hoje a noite devem chegar em casa. Mais um sistema falido nesse Brasil que amamos mas nos desgosta tanto.
No mais, desejamos a todos um ótimo Natal, cheio de alegria e com o verdadeiro espírito de doação e amor que foi ensinado por aquela criança que condescendeu em nascer de forma humilde e comum embora fosse o Rei dos Reis!







