Capítulo 10
Olá meus amigos!!
A vida aqui vai passando, cada vez mais adaptados, mas com pitadas persistentes de nosso passado. É interessante: descobri-me sem lugar; não pertenço mais a BH, mas também não me acho totalmente aqui. As pessoas me vêem como Sister Myrrha, são amáveis e atenciosas, mas ainda não são amigas, serei sempre alguém passageiro na vida delas e elas na minha, uma conta de 3 anos. Acabo por me ligar mais aos missionários, que se tornam aqueles com quem compartilho mais experiências, mas mais passageiros ainda: a conta deles é de 2 anos e pegamos o bonde andando na vida de muitos. Dia desses troquei e-mails com Érico Júnior, Juninho, aquele rapaz de ouro que está na Missão São Paulo Sul (tenho autorização especial do Presidente Teixeira de corresponder-me com ele...) sobre como a experiência da missão é algo solitário. Só quem está no processo para saber. É como estar desplugado, ou no descanso de tela...
De qualquer forma, acho que com o passar do tempo estou começando a enxergar além dos fatos e estou partindo para coisas mais profundas. O processo de saída de missionários queridos tem-me feito pensar sobre esse momento especial que é desplugar-se daqui e plugar-se à vida normal. Outros muitos já passaram pelo processo e talvez nem tenham analisado os sentimentos , mas a mim essa experiência me chega de maneira tão interessante... um protótipo do que viveremos nos próximos anos várias vezes e finalmente conosco mesmos na nossa saída daqui.
Para começar, ao deixarem o campo missionário esses jovens mudam completamente. Voltam a ser rapazes e moças comuns. Eles sabem disso e se ressentem de não ter mais aquele sentimento de estarem "separados do mundo" como ensina o Manual Missionário. Dia desses saí com alguns em roupas normais, pois fôramos pescar. Achei-os tão.. normais... cantarolando músicas de casa, brincando saudavelmente, mas como jovens, não como missionários. Perguntei o que acontecera e um deles explicou: “não estamos de camisa branca e gravata... ficamos realmente diferentes.” Outro, que estava já indo embora, preocupado e em particular, perguntou-me se percebia-o diferente. O receio de perder esse algo mais, oculto na voz exitante. Difícil entender se não se acompanha o processo. Imagino que se antes os e-mails eram difíceis de entender, quanto mais agora... falando de coisas que muitos de vocês não experienciaram... Prossigo ainda assim:
Descobri que a música Encontros e Despedidas do Milton Nascimento ilustra bem a emoção da missão: um eterno "chegar e partir, dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro é também despedida..." Interessante receber um grupo de novinhos, a cabeça cheia de incertezas, mas muito animados, uma vida inteira de 2 anos pela frente. Do outro lado, os "saintes", a cabeça a mil também, diga-se de passagem, o sentimento dúbio do querer ficar e do querer partir. "Tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar, tem gente que veio só olhar, tem gente a sorrir e a chorar"... Senão ambos, chorar e sorrir, no mesmo coração. A maioria absoluta responderia com alegria a um convite de estender por mais algum tempo sua permanência entre nós.
Depois de se irem, percebo que tudo realmente muda rapidamente para eles e nos tornamos remanescentes de um passado... o corte abrupto e doído para quem fica, como defesa para a adaptação a vida normal de quem se vai. Mais complexo do que poderíamos ser levados a crer, mas certamente um tempo que não voltará jamais, nem para nós, nem para eles.
Outros tantos estão agora se preparando para a missão. Essa semana recebemos a notícia da chegada do Chamado Missionário de 3 amigos: Stefano Gatto (Florianópolis), Lucas Lage e Franklin (ambos para São Paulo Norte). Três amigões do Diogo (e da Nat também), paus para toda a obra na nossa saída, noites e noites insones de farra (saudável!!), freqüentadores assíduos da Lima Barreto, três filhos acima de tudo. Quanta alegria! Oramos por sua preparação para esse tempo tão rico de suas vidas. Logo Diogo os seguirá. Essa semana começa a comprar o enxoval: terno, calça social, camisas brancas, gravatas, sapatos sociais resistentes... Queria muito estar com ele , mas achei nosso ex-missionário Elder Shawn Yeats que ajudará desse momento importante, um tempo esperado há muito.
Nathália está em Belo Horizonte, recebendo muitos elogios quanto a maturidade que vem conquistando. É mesmo uma moça bonita por dentro e por fora. Sempre fiel, sensível e dedicada aos amigos e familiares. Esse final de semana assumiu a coordenação do almoço de aniversário da Bisa Tantão (mãe do papai). O comentário geral foi de que eu andara por lá, botando todo mundo para frente. Fiquei orgulhosa, feliz em enxergar-me um pouco nela.
Na semana que passou visitamos 12 das 20 cidades de nossa missão. Um caminho de 1500 quilômetros em 5 dias. Uma média de 2 a 3 cidades por dia. Rodrigo entrevistando os missionários, com quem tem que falar a cada 6 semanas, e eu aproveitando o tempo com eles para instruí-los na única atividade física que posso aconselhar alguém: alongamento!!! Parecem pedaços de pau, com conseqüentes dores na região lombar de tanto andar e ficar em pé. Pilates neles, aconselharia... mas obedientes, fizeram os exercícios propostos, com muita careta e reclamando que militar imaginavam ser Presidente Mack, que nos antecedeu... Foi bom estar com eles relaxadamente e nem fiz muita questão de visitar as casas, onde teria que aplicar o inventário que os penaliza em R$5,00 na mesada se a nota for 7 ou menos– detesto tirar o dinheiro deles!!! Mas já se disse que essa é a parte do corpo que mais dói: o bolso! Depois, ainda sacava do carro-tanque minha máquina de costura e... estou expert em cortar mangas de camisas (agora que o verão chegou...) e costurar fundilhos de calças. Lembro da mamãe perguntando se Rafael tinha gilete no bumbum...
As fotos anexadas são da destruição que ocorreu em Santo Antônio das Missões no final de outubro ,um sábado a tardinha. Esqueci de comentar no ultimo e-mail.. Difícil acreditar. Também as pedras de granizo tinha o tamanho de uma mão fechada... A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias chegou de imediato. Anunciaram no domingo em São Borja que precisavam de voluntários e uma equipe de 20 homens , com 3 carros e duas motos se apresentou de imediato, seguindo em uma viagem de quase duas horas no mesmo dia, encontrando outros 40.Também foi enviada uma ajuda de 20 mil dólares para a reconstrução, para a compra de telhas e lonas, para membros e não membros. A capela foi aberta para receber os desabrigados, enquanto outras igrejas fechavam as portas e realizavam bingo para arrecadar fundos para seus próprios telhados. O resultado é que o Prefeito da cidade compareceu a nossa Conferência de Distrito em Santa Rosa agradecido e surpreso. Agora chegaram doações de roupas, material escolar e livros. Foi bonito ver acontecer tão rápido entre nós... Sempre ouvi disso em outras terras...
Os campos agora estão com milho e soja começando a brotar. Bem verdes. A soja plantada no que sobrou do trigo, o dourado dando lugar ao verde. Outros lugares mais ao norte preparando a terra para o arroz. Fazem trilhas elevadas em desenhos curvos pelo campo plano que represam a água. Alguns já com pontinhas bem verdes brotando. Mas encantador mesmo foi ver um campo de girassóis, maravilhoso, florido... a perder de vista! Em alguns lugares , ao sul, pastando juntos gado, ovelhas e... emas! Muitas emas além de garças e um pássaro que vi agora a primeira vez, maior que uma garça, com corpo branco e asas pretas. Também fiquei surpresa de ver jassanã por aqui. Vai de norte ao sul do país. Lembro meu desespero ao ver uma penca deles presos pelos pés em São Bento, Maranhão, terra da mamãe e vó Naná, onde é feito com arroz. Vi muitos deles no Pantanal onde são chamados de Cafezinho. E agora aqui, em alguns dos alagados de arroz.
Gosto de receber notícias de vocês. Não se esqueçam de nós. Repassem a quem possa interessar, menos a nossos missionários ainda no campo. Esses longos e-mails são tentativas de mantê-los, amigos que são, em nossas vidas. Amamos vocês!






