Capítulo 18
Olá amigos todos, espalhados mas guardados no coração!!!
Já se foi mais um mês e o tempo está mesmo voando. Temos quase um ano aqui e já começo a preocupar-me com nossa volta breve em 2 anos... ;)
Para homenagear as mães de nossos missionários tiramos fotos deles com seus companheiros de distrito. Alguns fizeram graça, desenharam corações com as mãos, fotografaram-se saltando, oferecendo flores... são sempre muito criativos. Acrescentamos uma cartinha pessoal da maioria (extraída a fórceps da turma high tech no dia da transferência na Rodoviária, eu com ca neta e papel nas mãos), e uma carta nossa, em que agradecíamos e explicávamos parte do trabalho que eles realizam, sua rotina diária. Ainda convidamos as que ainda não são da Igreja a receber os missionários para almoçar ou lanchar em suas cidades. É o convite que extendo a vocês que ainda não tiveram essa chance. Eles sempre famintos, mas sempre com um espírito que adoça qualquer ambiente. Podem testar!!! Em troca recebemos tantas manifestações de amor e gratidão, cartas lindas, e-mails atenciosos, mães generosamente compartilhando seus tesouros comigo, como numa grande família na qual somos abertamente incluídos. Não me chamam de mãe, exceto um ou outro, especialmente se estão doentes, mas falam "sister" como falam mãe em casa: toda hora, gratuitamente e ainda mais quando temos visita... Não há lugar mais adulador para uma mulher estar: carregam minhas coisas, interessam-se por meus conselhos, elogiam meu cabelo novo, fazem “fiu-fiu” se me arrumo. Adeus a baixa estima!!!!
O Dia das Mães foi sem graça sem a movimentação das famílias de ambos os lados. Sem Diogo, sobrinhos, irmãos, sem mães, sem avós. Começamos com um café na cama, nossa tradição para aniversários e datas especiais mas que escraviza o pobre homenageado sob as cobertas com a bandeja por cima e todos partilhando da comida... mas é a nossa maneira de homenagear.. Ganhei flores e "O Caçador de Pipas", que já li até bem rápido. Não lia nada desse tipo desde que cheguei aqui. Acho que meu espírito tem participado da pureza dos missionários com quem vimos servindo e tem-se ofendido com a tristeza e a sujeira humana. Não posso dizer que não gostei, é um bom livro, mas foi difícil passar por aquelas páginas tristes. Meu mundo agora é outro, puro e sereno. Sem maldade, só feito de limpeza e amor, de serviço abnegado e transformações miraculosas de vidas e mais vidas. Nem TV vejo mais, (já não tolerava muito mesmo há anos). Talvez por isso se torne tão difícil voltar... tenho andado preocupada com isso. Depois nós 3 nos encolheiramos sob as cobertas na manhã fria... nossas reuniões são à tarde. Diogo fazendo falta e assim ficou, fazendo falta, até as dez da noite quando conseguimos nos falar. Magoei!!!
Diogo segue estudando muito. Quando planejamos esse tempo, aconselhei-o a pegar matérias fáceis na BYU, que aproveitasse esse ano de interlúdio entre Brasil e missão. Mas me enganei com a seriedade com que meus filhos encaram a vida e os estudos. Ele não só entrou de cabeça, como preencheu os créditos todos que podia, escolhendo matérias difíceis mas que o levarão em pouco tempo à graduação em Economia, postergada para depois de seu tempo como missionário. Ainda arranjou um trabalho sério, onde aprende muito e mostra seu potencial. Parece ter lugar garantido para voltar. Outro dia escreveu para o amigo Franklin agora na missão: "Tenho feito tanto, produzido tanto em tão pouco tempo que os anos estão passando depressa. Tenho medo de ficar velho de uma vez, e não lembrar desse tempo que vivo. Felizmente, as lembranças do que fizemos juntos estão vivas, e viverão para sempre. Construímos muito, crescemos muito, vivemos muito. O Senhor nos guardou em nosso crescimento, e agora guarda-nos no presente, mesmo a distância...." Tenho mesmo que piar como uma coruja vaidosa...
Nat por sua vez vai cada vez mais exigente consigo mesma. Resolveu que quer ser excelente em tudo o que faz, só que suas atividades são muitas: balé, Inglês, piano, escola, seminário diário, quer ainda outra língua! Só não gosta mais de dormir... um custo levá-la pra cama a meia noite! Devora um livro depois do outro, fica vidrada no Orkut e MSN, sai com as amigas e comemora a reabertura do cinema de Santa Maria. Uma adolescente como outra. Mas ciosa de suas responsabilidades e desejosa de acertar. Outro dia, planejou de ir a um show pop em Porto Alegre. Demos a ela a liberdade de escolher, uma vez que iria com a família de um Setenta de Área amigo nosso. Lutou na dúvida por uma semana até que assumiu o compromisso de ser guiada pelo Espírito e não pelo comportamento do mundo. Conforme me relatou, desistiu porque "não sentia-me bem a respeito de ir a um lugar como aquele" . Ouçam-me chirrear!!!
No feriado da quinta dia 23 de maio estivemos no Uruguai, bem próximo a Quaraí em uma estância hidro termal. É bem lindo. Entrar no Uruguai foi diferente. Os bois são outros, com a cara branca e bem arrepiada. Mas os pássaros em profusão são os mesmos do Brasil: carcarás, caturritas verdes que brilham ao sol, picapaus de cabeça vermelha. O lugar é sossegadíssimo, perdido no meio do nada e as piscinas quentes e públicas tão interessantes. Tudo aberto,sem grades, sem muros. Campos e mais campos. Carneirinhos recém nascidos correndo ao lado de suas mães com o barulho do carro se aproximando. Nada a pertubar o horizonte exceto ilhas de árvores deixadas no pasto, imagino eu pra aliviar a criação no calor infernal de 40 graus do verão. Estamos no fim do período da seca, que nem de longe deixa tão acinzentados os campos como em Minas Gerais. Ainda se vê algum verde e na região de Alegrete, onde uma chuvinha já caiu, a natureza agradece e já verdeja novamente.
Nesse intervalo dei treinamentos sobre boas maneiras à mesa e sobre alimentação. Precisa ver a cara de susto dos missionários quando informava que 2 biscoitos recheados tem calorias suficientes para 25 minutos de corrida... Lembro-me quando descobrimos isso em família, indo para a casa do Luciano em Lavras Novas... ficamos bom tempo sem comer biscoitos recheados. Nunca imaginei que meus parcos conhecimentos (e ainda mais parca prática) pudessem valer alguma coisa em orientação nutricional. Mas se eu falar, vira lei entre eles... é interessante. Assim, já consegui reduzir muito o consumo de Miojo na missão e aumentar o consumo de frutas. E já tem muita gente fazendo arroz para o jantar: bom, saudável e barato. As irmãs também se converteram e agora escuto reclamações de que aboliram com as sobremesas em prol das frutas... coitadinhos!!!
Nessa sequência de Conferências de Zona levei uma caixa inicialmente com 60 gravatas, para troca. Eles se deliciaram, já que esse é o objeto de consumo mais pessoal e vaidoso que usam. Recebi algumas horríveis, mas me vi livre das piores em Santo Ângelo, com Elder Madsen, que tem a sexta feira como o dia da gravata feia. Quando mostrava algumas horríveis pra ele, ouvia o argumento: "esse não é o meu tipo de feia... Prefiro aquelas que parecem cortinas velhas..." E levou algumas que o Senhor nos acuda!!! Mais divertido era ver a velocidade com que as trocas eram feitas. Mal entrava uma nova e tinha gente interessada já separando. Quando achava que tudo estava escolhido, descobri que há gosto pra tudo... a ultima rodada em Alegrete começou com eles meio desanimados, achando-se já em desvantagem e, impressionante, foi dos lugares em que até tiraram gravatas do pescoço pra trocar... Atividade divertida. Engraçado é ver gravatas queimadas de tanto tomar sol, e no pescoço deles... pobres andarilhos... Também troquei camisas: 2 desfiadas no colarinho por uma boa. Fiquei aliviada de retirar da missão tanto bagulho... e ainda podemos dar para os irmãos que não tem nenhuma... imagino que possam "virar o colarinho"...
Os sweateres e agasalhos que recebemos gentilmente das familias Kennedy e Wright estão já distribuídos. Acho que eles não imaginam quanto bem fizeram. Muitos brasileiros desprevenidos eu já esperava, mas dei com muitos e muitos americanos também necessitados. A esses tenho recomendado que avisem a família para mandarem por pacote. Vamos ver quando chegarão. Outras famílias voluntariamente estão participando e tudo sempre será muito bem vindo. Mas o programa de tê-los aqui na Missão é interessante. Poupa volume e peso nas viagens. Espero manter todos sob controle. Também não há lugar no Brasil onde se façam necessários... ninguém leva mesmo.
O próximo assunto com os missionários é o cuidado dos pés, "meu pé, meu querido pé que me aguenta o dia inteiro" , a geração Castelo Ratimbum sabe cantar. Acabei de compor uma paródia para o cuidado dos pés, a partir do hino "Ó Montanhas Mil", número 16 do Hinário. Ficou divertido. Podem tentar.. vamos lá... coragem!!! Bem que poderia ser: ai meus pés, ai meus pés...
Ó meus pés, ó meus pés
Caminhando a mil, sob o céu de anil,
Dóem os pés de missionários de bem.
Mas se não bobear, sem os cantos cortar
Sua unha nunca vai encravar.
Ó meus pés, ó meus pés,
Deles cuidar!
Lysoform usar, o mau cheiro acabar
Bons sapatos, meia e palmilha trocar!
Quando banho tomar, entre os dedos lavar,
Dessa forma a frieira evitar.
Sem sapatos ficar, deixando-os respirar.
E um creme para acariciar.
Vale tudo para treiná-los. A missão vai bem. Estamos melhorando em todos os chamados "indicadores-chave": lições por dupla por semana (média de mais de 27), pesquisadores na Reunião Sacramental (subindo muito), lições com membros (mais de 370 na semana, ainda pouco...), batismos (92 em maio). Rodrigo fica feliz. Sente que está indo na direção certa e à maneira dele (empiricamente na minha opinião, bem delineado e estudado na visão dele), segue em frente. Confio no que faz, a despeito de termos maneiras muito diferentes de obter resultados. Mas os missionários o amam também. Seu jeito descontraído e mediador conquista os corações. É um líder nato, preparado bem antes de estar aqui. Sou privilegiada pelo companheiro que me foi dado. Poderoso, gente boa !!! Felizes recebemos aqui para Conferências de Estaca Elder Parrela (Livramento) e Elder Tobias (Cruz Alta), amigos do Quórum dos Setentas. Elder Tobias vindo de Belo Horizonte ainda trouxe pão árabe encomendado ao papai. Que delícia! Minha alma gorda ficou mais completa aqui.
A dedicação do Templo de Curitiba foi tão especial! Ontem assistindo a Celebração pensei na Blind, filha da irmã pioneira em Ipoméia, companheira da Vó Naná quando essa servia sua missão no Templo de São Paulo. E dei-me conta que a Igreja no Brasil começou a muitos anos com a fé e o testemunho de uma mulher fiel. Novamente as mulheres, silenciosamente fazendo a diferença. Olhando das janelas dos céus a obra avançar, senti que Vó Naná fora convidada a participar desse momento sagrado. Que bênção grandiosa ter esse quinto Templo aqui entre nós. Sou de uma época em que os planos para casamento eterno envolviam viagens longas e dispendiosas. Privilégio de muito poucos, para quem olhávamos admirados e respeitosamente. Essa semana ri muito quando Elder Balista me perguntou porque levar lenço branco para a dedicação do Templo de Curitiba na transmissão via Satélite esse fim de semana. Começou explicando-me que supunha saber, já que no Templo de São Paulo informaram-no que os lenços brancos na Sala de Selamento eram para as pessoas que se emocionavam... Já estava pensando que o lenço branco da Dedicação era para chorar... e essa foi a explicação que deu para um membro novo que lhe perguntou... Rimos demais!
Em 1982 escrevia no Diário que queria me casar com um homem que fosse servir fielmente ao meu lado na Igreja. E completo: "Edificar o Reino de Deus é algo que eu levo a sério." Surpreendo-me lendo as coisas que falava... em ver como era missionária...Dava Livros de Mórmon para os taxistas, saía com os missionários para bater nas portas de meus vizinhos, dava livros da Igreja para pastores batistas do meu colégio, levava convidados na Conferência da Estaca. Apresentei a Igreja a uma família inteira de 12 filhos que foi batizada com um contato de rua...acreditam? Os Torquetes...tinha me esquecido... Mas não é orgulho. É só surpresa por ver todo o bem que o serviço na Igreja me fez ao longo dos anos. Considero um privilégio ter uma vida de serviço. Meus chamados me fizeram ser melhor, ainda com todos os defeitos que tenho. Ufa!! Imagine-me sem essa chance... Deus tem sido bondoso e paciente comigo.
De quando em vez recebemos mensagens e notícias tão calorosas de amigos que sentem nossa falta. Franklin tem escrito constante. Lucas e Stéfano também. Nossos amigos na missão. Érico Júnior, missionário na Missão São Paulo Sul encontrou uma família que Rodrigo ensinou quando missionário, cheios de lembranças e amores. Outros nos agradecem o apoio em momentos difíceis. Manifestam quanta falta fazemos no meio deles. Acho que quando nos ligamos no Evangelho estamos selados para sempre. Ainda mais quando passamos juntos por momentos difíceis. "Levantar os joelhos que pendem, chorar com os que choram, consolar os que necessitam de consolo" foi um dos grandes privilégios que tive na minha vida na Igreja. Não só por mal e humanamente estar cumprindo com meu convênio batismal, mas também porque hoje vejo que esses laços assim construídos, nos momentos difíceis e também nos sagrados, são os que duram e perdurarão. E passa a importar muito pouco de que lado estivemos no momento da ação, consolados ou consoladores. Participamos, todos juntos, do mesmo amor que emana de Deus para seus filhos e essa é a mágica.
Beijos e abraços calorosos, para espantar o frio de 5 graus aqui hoje!


















