Capítulo 19

Olá amigos!!!

Menos de um mês! Nesse meio tempo fiz anos, "estive de aniversário", como dizem aqui. O tempo é inclemente, mas sinto-me bem, saudável, feliz e jovem afinal. Nunca me importei mesmo de envelhecer. Já me chamavam de "avó" quando mal tinha 18 anos e fazia tricô em sala de aula . Pode ser que quando o tempo começe a cobrar no corpo que ainda me permite todas as atividades, fique mais sensível a isso.

Mas comemorei, como há algum tempo não fazia. Não tenho muitas amigas aqui. Isso é coisa que leva tempo geralmente para acontecer. Mas convidei as irmãs da Igreja que de alguma maneira estiveram ao meu lado nesse tempo, ajudando com os missionários. Ampliei para umas 40, mais umas 10 do prédio onde moramos e que só conhecemos de elevador. E foi tão interessante!!! Projetamos a montagem da nossa despedida que a Carol Lima fez, para nos apresentar aos convidados (meio hilário isso...). Depois abri um tempo para perguntas. Começaram meio tímidas, mas logo estavam perguntando faceiras... falamos sobre nosso chamado, o que fazemos aqui, como os missionários trabalham, porque vêm, como, o que fazem. Falamos de nossas atividades antes da Missão e como nos sentimos aqui entre os gaúchos. Uma delas, a ex-síndica e quem na verdade convidou todo mundo do prédio porque eu mesma não conhecia ninguém, peguntou se com um cartão de apresentação do Presidente Myrrha poderia entrar no templo de Porto Alegre. Fora convidada pelo Presidente Mack para a visitação, mas não foi. Aproveitei a deixa para brincar que havia sim uma maneira: ela devia ouvir as missionárias , ser batizada e dentro de um ano poderia visitar o Templo... todas riram e o ambiente ficou mais relaxado.

Aniversário: minhas convidadas
Aniversário: minhas convidadas
Eu bem faceira
Eu bem faceira
Mão de Elder Rebicki
Mão de Elder Rebicki

Elas se mostraram muito surpresas ao descobrir que Fernanda, nossa ajudante fiel, não é membro da Igreja, mas de outra Igreja, onde é muito ativa. Ela até tem um programa de rádio nas segundas a noite (vou ter que ouvir dia desses). No aniversário dela (03 de junho) chamamos algumas amigas da Igreja dela para nos visitarem e a conversa foi tão agradável. Temos mais coisas em comum, tais como acreditar em Deus, orar a Ele, crer em Jesus Cristo como nosso Salvador, viver uma vida de retidão, etc, etc, que seria uma grande burrice concentrar-nos nas diferenças. Ela ficou feliz e nós também de vermos que escolhe pessoas boas para conviver. Agora está namorando e está bem feliz... até pensando em ficar aqui pelo Sul. É uma boa moça, que nós nos orgulhamos de chamar amiga, dedicada e sempre disposta a ajudar. Devo confessar aqui, publicamente, que meu trabalho não seria o mesmo sem sua ajuda essencial, cuidando da cozinha melhor do que eu faria. Quando os missionários falam comida da Fernanda, costumo dizer enciumada: "Eu e Fernanda somos um - podem elogiar-me e a ela!" Nesse assunto, a gente até lê pensamentos uma da outra. É divertido. E apesar de todo o trabalho, ela adora os missionários e nunca tem preguiça de recebê-los. Uma bênção acoplada a esse tempo maravilhoso. Muito obrigada, Féfis!!

Saídas: Elder Leandro, Elder Paz, Elder Cordeiro, Elder Thomas, Elder Lima, Sister Martins, Elder Jacob, Sister Santos, Elder S. Moreira, Elder da Silva, Elder Aquino, Elder Passay, Elder Corrêa, Elder Nielsen
Saídas: Elder Leandro, Elder Paz, Elder Cordeiro, Elder Thomas, Elder Lima, Sister Martins, Elder Jacob, Sister Santos, Elder S. Moreira, Elder da Silva, Elder Aquino, Elder Passay, Elder Corrêa, Elder Nielsen
Chegadas: Sister Candido, Sister Ribeiro, Sister Quist, Elder Soares, Sister Messias, Elder Zequini, Elder Johnson, Elder Bryson, Elder Zimbelman
Chegadas: Sister Candido, Sister Ribeiro, Sister Quist, Elder Soares, Sister Messias, Elder Zequini, Elder Johnson, Elder Bryson, Elder Zimbelman

Aos 44 anos , descubro-me mais sabida que essa meninada. Volta e meia ouço declarações do tipo: “Como você sabia, Sister?” Outro dia recebi uma ligação dos Líderes de Zona de Santo Ângelo, Elder Crose e Elder Santana, preocupados com um rato morando na casa deles. Atendi sem surpresa, já que eles moram em cima de uma dessas lojas de R$1,99, convite certo para roedores. Avisei: deve estar debaixo do seu fogão... ou no sofá velho que ganharam outro dia e subiu pelas descidas pluviais. "Vamos pegar ele,Sister", me avisaram. E adverti: “Não vão não... ele só acorda quando vocês já estão na cama. Usem Racumim ou ratoeira.” Dias depois me ligaram assombrados: estava certa em tudo, exceto que Racumim agora é proibido. Ainda essa semana recebi outra ligação: Elder Orr bem indisposto do estômago e sem conseguir se aliviar. Recomendei uma coca quente, tomada tipo "vira- vira" e avisei: “ “Faça isso no banheiro!” (Como esquecer esse santo remédio experimentado na Praia da Pipa, em Natal com Aléxia, Igor, Carla e Marcelo? Eco!!!! ) "Como vc pode saber essas coisas todas, Sister?" Esquecem-se, ainda bem, que tenho mais do dobro da idade deles...

Fiquei surpresa com a quantidade de presentinhos que ganhei feitos pelas pessoas. Mantas (cachecóis), caixinhas de madeira pintada, panos de prato, velas... o povo é habilidoso! Vou passar aperto em entregar creminhos em sacolinhas compradas prontas... Será que é o frio, convidando a ficar em casa perto do fogo? Acendemos nossa lareira essa semana passada. E até assamos batata doce rosada (bem amarela por dentro, diferente) em papel alumínio. Tínhamos aqui dois sobrinhos de presidentes de Missão aguardando pelo ônibus de meia-noite para Uruguaiana: Elder Queiroz, neto do Presidente Walter Guedes de Queiroz e sobrinho do Walter Queiroz que presidirá a Missão Florianópolis e Elder Rebicki, o baita do piá, mão enorme, sobrinho do Presidente Castro Deus, da Missão Campinas. Foi bom ter tempo de sobra com eles para conversar. Podem não acreditar, mas há tanto a descobrir sobre eles que não é dito nem perguntado por falta de tempo livre para jogar conversa fora...

Às vezes escuto coisa engraçadas por aqui. Uma casa em Cruz Alta foi roubada. Enquanto os missionários, Elder White e Elder Kaerchner, procuravam um telefone para nos avisar (desafortunadamente essa dupla não tinha celular), encostaram um caminhão na porta deles e fizeram o resto da "mudança". Ficaram com a roupa do corpo e com o que estava sendo lavado na casa de outros que, afortunadamente, eram os que tinham máquina. Quando liguei para saber do que precisavam, mala inclusive, ouvi: "Ainda temos uma maleta e o que temos cabe dentro dela!" Dei boas risadas. Outro dia ouvi de Elder Lima, de Salvador: "Na Bahia era grande e branco e aqui sou baixo e preto." Mais um que já se foi. Escreve-me no Orkut "mainha..." Realmente uma novidade sulina para nós "sudestinos" é a quantidade de louros e branquinhos. Para todo lado... em todas as funções. E louras lindas. No meu "Pilates" tem umas quatro, lindas, perfeitas! Dia desses em uma casa para idosos dei com uma velhinha bem no tipo da Vó Tantão, "alemoa", como me disseram. E uma outra com os cabelos brancos da Vó Naná, 90 anos também. Dona Natalina. Bem posso chamá-la de Dona Naná, parecida, porque igual não tem outra. Na igreja encontrei uma senhora, irmã Jandira Traje, mãe do Presidente Traje da Estaca Cruz Alta, um homem muito bom e avó da Karen, amigona da Nat. Ao saber da Vó Naná, lembrou-se muito bem dela, serviram juntas em São Paulo como missionárias no Templo. Identificou o andar "faceiro" da irmã Filomena Corrêa. Minha avó ficou na história.

Fisioterapeutas do Pilates
Fisioterapeutas do Pilates
Nat e Marjorie no Templo do Porto Alegre
Nat e Marjorie no Templo do Porto Alegre
Visita ao Lar das Vovozinhas
Visita ao Lar das Vovozinhas

Nat foi ao Templo no fim de semana antes do meu aniversário com as três amigas fiéis: Karen Traje, Marjorie e Sara Dutra (ver foto). Que coisa boa!!! De lá emendou na casa do Elder Villanova para um baile famoso, Baile das Rosas, já com 13 anos de tradição. Voltou feliz com duas rosas que ganhou, reclamando que a maioria das músicas eram lentas, para dançar a dois. Também, era baile para maiores de 18 anos, mas insistiu em ir... Fico agradecida a familia Villanova por receber Nat assim. Para ela, os ares de Porto Alegre fazem bem. Volta animada, cheirando cidade grande. Nesse meio tempo foi condecorada com o " alamar", essa cordinha pendurada na cava da blusa que se vê na foto. Significa que foi muito boa aluna, dos 60 melhores do Colégio todo. Continua brilhando.

Diogo por sua vez continua a merecer a confiança e o investimento de seus " chefes" na BYU TV. Foi promovido a "gerente de negócios com o Brasil". Fiquei meio impressionada, mas é verdade... o país da oportunidade!) e já conseguiu que uma emissora de TV a cabo de Porto Alegre retransmita a programação da BYU TV International. Se puderem, assistam via Internet e escrevam para lá, comentando da programação em Português. Isso pode estimular a divulgação e repercussão no Brasil dessa emissora de qualidade indiscutível. Está meio abandonado sem o amigo Lucas Simplício que está na Califórnia trabalhando no verão e sofre em ver-se prestes a perder a companhia de Mariana Costa, filha do Elder Cláudio Costa, amiga para todos os momentos. Mas breve pega o avião de volta... agosto! Oba!!!!!

Nat recebendo “Alamar”
Nat recebendo “Alamar”
Baile das Rosas, Porto Alegre
Baile das Rosas, Porto Alegre
Velho escritório
Velho escritório

Depois de um ano aqui vão reformar o Escritório. As cortinas velhas serão trocadas, tirarão o carpete, trocaremos a posição das salas, gesso e iluminação novas. As divisórias de aglomerado serão trocadas por dry-wall, muito mais limpo. Senti-me arquiteta de novo. E com poder, porque não tinha um projeto fechado e completo. Muito decidimos em conjunto com a equipe. Eu "me achando"... coisa boa!!! Estava saudosa disso. Vai ficar bom. Terei muitos armários para as muitas coisas que tenho recebido. Agora no Inverno ficamos com os armários vazios. Mas ao chegar o verão, quando todos começam a devolver os agasalhos, teremos lugar suficiente, espero. A sorte é que estive, desde que cheguei e obsecadamente, a esvaziar o escritório de todo o excesso. Ainda temos muitas coisas, mas tudo está em ordem. Na mudança, tivemos uma caixa para cada coisa: ventiladores, aquecedores, liquidificadores, panelas, sweaters, meias, camisas brancas, pastas suspensas, cabos variados, sapatos novos, sapatos usados, roupas térmicas, gravatas... tive ordem na bagunça. Quis usar cores algo... diferentes nas paredes. Mas me boicotaram. Só o palha de sempre... Me angustiei...minha casa é toda palha, o escritório é todo palha... cor é uma coisa boa. Alegra o coração. Fizemos os armários de imbuia e melamina branca. Vai dar um contraste legal e uma durabilidade boa também. Estou ansiosa pela entrega. A segunda quinzena de junho está sendo um desafio, sem pouso certo. Os secretários locados numa capela. Abençoada seja a rede wireless!!!

Casa Grande Nova
Casa Grande Nova
Casa Grande Velha
Casa Grande Velha
Pais de Elder Thomas
Pais de Elder Thomas

Também mudamos a chamada "casa grande", onde moram os assistentes e mais uma dupla de treinados dos assistentes. Foi mais um adeus sobre o nosso começo aqui, simbolicamente importante. Era um apartamento e começamos a ter problemas com um vizinho estressado que até das descargas do banheiro reclamava. Mudamos para uma grande casa, um dia de muito trabalho, sete rapazes fortes trabalhando duro das 6 da manhã as 9 da noite, mas tudo ficou pronto: 28 camas que recebem os transferidos, os treinadores e os treinados, os saíntes e os chegantes em ciclos de 6 semanas. Costumo dizer que esse é o ciclo dos assistentes, 6 semanas, com direito a TPT : Tensão pré – transferência. Eles riem tímidos... . Eu fiquei com eles no início da tarde e depois das 5 horas. Julgaram fundamental alguém para mandar... e eu não gosto nadinha... Deu certo!

Depois disso Elder Thomas, outro assistente, foi embora. A família de três veio buscá-lo: o pai Dave, a mãe Kathleen e a tia Janet. Trouxeram-nos muitas coisas: casacos, camisas brancas, meias a rodo e 120 gravatas, doações da ala deles em Cedar City, Utah. Acho que farei um amigo oculto de gravatas doadas. Tivemos uma sequência de trocas de Assistentes do Presidente. Com a saída de Elder Kennedy, veio Elder R. Lima. Depois Elder Hurst foi embora e veio Elder Thomas. Quando Elder R Lima se foi, veio Elder Nogueira. Na troca desse último, veio Elder M. Lopes, um anjinho de pessoa e finalmente agora, Elder Thomas indo embora, Elder Fowler, outro anjinho. Estava sentindo falta desses tempos de paz. Até voltamos a sair e ver filmes juntos no P-day. Outro dia fomos com o Staff agora mais hamonioso à Quarta Colônia. A visita a Cachoeira do Mezomo para eles foi o ponto alto. Falam até hoje com entusiasmo, fotos de lá servem de fundo de tela no computador e Rodrigo pensando que não queria levá-los lá já que não poderiam nadar (missionários não nadam, mas se divertem com muito pouco!).

Elder Hurst que foi embora em dezembro, é desses que faz questão de me ligar de quando em vez. Casou-se semana passada, dia 14 de junho. Achei tão bonitinho que me ligasse a caminho do Templo para seu selamento. Na verdade, senti claramente que deveria ligar-lhe naquela manhã de sábado. Achei-me ridícula incomodando o noivo a caminho de seu casamento (nunca sei quais limites seguir). Mas senti novamente e resolvi atender aos sussurros do espírito. Liguei e ouvi de cara: “Onde você andou que estou tentando ligar desde cedo? Precisava falar-lhe antes de meu casamento.” Na verdade nosso Voip number estava mudo e foi providencial que eu tomasse a iniciativa. Foi para a lua de mel no México e lá não perdeu tempo e levou os missionários a visitar o amigo de longa data da família de Heidi, Pablo (um vendedor ambulante de frutas). É isso aí: trabalho missionário sempre! Tem fotos dele no Facebook com a família e os missionários. Somos amigos.

Val de Buia com Staff
Val de Buia com Staff
Vista de nossa apartamento
Vista de nossa apartamento

Continuo minha saga de esparramar-me. Nunca mais serei a mesma. Vejo que meu coração estará em vários lugares. Ouvi a declaração de um bom rapaz, recém voltado da missão dos Aidukaitis que me garantiu: "Tenho um amor tão profundo por meu presidente e esposa na missão. Se não fosse idolatria, acho que os adorava!!! Ainda hoje, casado, se eles me disserem: não faça, não terei coragem de desobedecer." Fiquei pensando no poder que tenho agora nas mãos para abençoar a vida de tantos (serão uns 300 ou mais). Sinto-me como Abraão, a quem foi dito: "Serás uma bênção para a posteridade depois de ti." Ele não era automaticamente uma bênção, mas teve que viver de modo a ser. Nas conversas que mantenho por e-mail, Orkut, MSN, telefone, tento lembrá-los de que Deus precisa de servos fiéis em todos os lugares. Eles precisam ser confiáveis. Se chegar na sua mão, não falhe!!!, costumo alertar. E insisto na educação. Já estou fazendo fama aqui de amante dos estudos, como era vista em BH. Essa é a saída para o ciclo da pobreza. De qualquer maneira, conformo-me em saber que não me ajuntarei mais. Vou usufruir as benesses de viver assim esparramada. E vou colher frutos por onde passar: amigos, filhos e netos. Levam uma parte de mim, mas deixam parte também. Aos poucos vou descobrindo como fazer disso uma troca saudável. Alguns sofrem mais a pressão da saudade que outros. É engraçado: os que estavam aqui quando chegamos , moram no nosso coração por terem nos recebido bem quando nada sabíamos. Só com a vontade de acertar. E esses a gente nem sabe se vão se ligar a nós porque tiveram outro presidente e, embora não seja uma disputa, a gente nunca sabe se vai ficar no coração deles. Os que chegam agora são mais exclusivamente nossos. Desses a gente tem certeza. Daqui a pouco chegará o tempo duro de saber inevitável dizer adeus para os que ficarão com outro presidente ainda.

Sapatos “Margarida”- tão feios mas tão fieís!
Sapatos “Margarida”- tão feios mas tão fieís!

Estou voltando a amar profundamente. Na capela outro dia estava com quatro sisteres, missionárias, olhei uma gravura de dois missionários enchendo os braços ao colher o trigo e veio-me um grande amor e respeito por essas meninas. Aqueles pés feios, sofridos , meias grossas em sapatos horrorosos... ainda quero descobrir algo mais bonitinho pra elas, mas elas mesmas me avisam que esse sapato de "Margarida" do Pato Donald é perfeito... vai entender...

Eu recebi tanto quando nova... uma família que mal ou bem estava na Igreja e me apoiava em meus esforços, o evangelho, segurança financeira, oportunidades de instrução, depois um bom marido... minha benção patriarcal fala claramente que a quem muito é dado, muito será exigido. Já fiquei muito preocupada com isso, porque nunca achei que me foi pedido muito. Ficava pensando quando isso seria requerido. Mas algumas pessoas acham que vir para Missão já é dar muito. Mal sabem elas do grande privilégio... não é ? Agora já descobri que quanto mais eu der, mais receberei, por isso não me parece ter sido exigido nada. De vez em quando ainda penso no futuro e o que Deus quer de mim. Vamos aguardar fazendo nossa parte agora.

Gosto das notícias e contatos. Começo a fazer as pazes com o passado. Amo vocês!