Capítulo 20
Como vão vocês todos? Agora começa a dar uma certa curiosidade em saber como vão as coisas. O que costumo dizer a meus missionários é que tudo continua absolutamente igual. Somente eles mudaram... deve ser o mesmo conosco! Estamos bem, felizes, unidos como nunca como família, apesar da distância do Diogo e enfrentando os desafios com coragem e conforto divino.
Recebemos na semana do dia 24 a 28 a visita do médico Dr Robert Newman. Ele e a esposa são missionários voluntários em São Paulo, cuidando dos missionários no Brasil, aconselhamento médico. Ele falou muito sobre exercícios físicos, para fortalecer a estrutura (anaeróbicos) e para "limpar os canos" (como ele falava - aeróbicos). Aprendi bastante, mas minha vontade de correr ou " acelerar o coração" não aumentou. Acho que vou morrer cardíaca... Foi uma boa semana de Conferências de Zona condensadas em 4 dias: Ijuí com as Zonas Cruz Alta e Santo Ângelo, Santa Maria na quarta, com parte de Alegrete e Santiago, Livramento na quinta com Alegrete e Uruguaiana com parte de Santiago na sexta. Após explicar que cuidar do nosso corpo também é um convênio que fazemos com Deus , e que Ele sempre honra a Sua parte, prometeu-lhes saúde e boa disposição se fizessem os 30 minutos por dia das atividades recomendadas. Acabaram-se as reuniões e, no último dia, não é que os missionários descobrem num jornal da igreja Church News, em Inglês, a notícia de uma missionária que morreu fazendo Jogging (correndo)? Só tínhamos que ler a primeira linha: "A sister missionary serving in England died May 10 while exercising" . Ruim para ela , cuja causa mortis não pôde ser definida, mas rimos demais!!! Um deles comentou em voz solene, como se fosse o Senhor: " Se você cumprir sua parte, Eu te trago logo para junto de Mim". Na quinta recebo telefonema de Elder Pessoa, um cearense de 1,85 m- a evolução do Cearense, como Rodrigo costuma dizer, para me contar que fez os tais 300 agarchamentos e 300 elevações de panturrilha... Não conseguia manter-se de pé... nem andar... gemia...Faltou avisar que era para fazer aos poucos...
Estávamos no processo de mudar de volta para o Escritório. Uma semana inteira estive por lá, trabalhando duro para colocar todas as coisas no lugar. Na quarta tivemos 3 irmãs da Igreja da minha Ala, Cladir, Denise e Eliane, que consertaram mais de 30 calças. Furos e rasgos variados. Desgastam-se perto do bolso atrás, onde a mochila roça o tecido e na barra, entre os pés, de tanto caminhar. Descosturam-se nos fundilhos e dos lados, perto dos bolsos. Deram cabo de uma caixa enorme. Já no fim do dia recebo a visita do Secretário Financeiro e seu treinado, Elder Dickinson e E Favreau, ambos precisando de um conserto. Tiraram as calças que usavam , substituíram por uma das consertadas e menos dois problemas na Missão. Irmãs, já descobri que todos eles tem problemas para consertar roupas.... Se querem ajudar, ofereçam-se para consertar. É uma boa maneira de ajudar esse jovens valorosos. Na quinta tivemos Beth Dutra e Magnólia (ambas com filhos na missão, certamente orando para que os seus encontrem alguém que faça isso por eles...) e a mãe Rute, cortaram mangas de 20 camisas. Sempre sobram mais as de manga comprida, usadas por menos tempo. E a demanda maior é por mangas curtas. Solução rápida e fácil.
Além disso, com o super depósito que temos agora, pude organizar todo o material de proselitismo, livros, roupas variadas, eletrodomésticos, utilidades domésticas... tudo tem seu lugar agora. Nathália entrou no Escritório e foi logo dizendo: “tem a sua cara...” Fiquei feliz que mesmo tendo pouca chance, tivesse conseguido qualificar o ambiente para que não fosse de todo impessoal. Fiz toda a parte da iluminação, alterei a cara do mobiliário para que tivéssemos uma mistura de ipê e fórmica branca, dei solução para o mobiliário. Com muito jeitinho... Tenho minhas dúvidas se volto para a Arquitetura, mas é certo que 20 anos não são 20 dias...
Dia 11 de julho eu e Rodrigo fizemos 21 anos de casados. Mais do que a idade da maioria de nossos missionários ... Pensei comigo que eles tem muito o que viver até chegar aqui... Mas vale a pena. Temos sido felizes e aconselho um bom casamento para todos. Foi um dia particularmente difícil, mas muitos devem imaginar que não deixamos a chance de comemorar passar, embora o plano original tivesse sido alterado. Íamos a Porto Alegre levar a Nat e ficaríamos por lá, indo a um bom restaurante Thai. Não deu. Mas saímos assim mesmo: mais carne do Santa Brasa, bem ao lado aqui de casa, onde servem um petit gateau legítimo!!! Ganhei presente, adulação e sou muito grata pelo companheiro que tenho tido nesses anos. Coisa para durar a eternidade. Rodrigo vai bem. Sobreviveu a uma tempestade que se abateu sobre a Missão ainda que com diarréia e indisposição estomacal. Tadinho!!! E anda animado em ver que finalmente algumas coisas estão mudando. Também, temos agora somente 29 missionários que não chegaram conosco, uma Missão toda nova considerando que temos apenas um ano aqui. Assim, muitos líderes são líderes precocemente, mas tem–se saído bem e são confiáveis.
Às vezes temos desafios aqui também. Os maiores envolvem o retorno de missionários antes do tempo. É bem sofrido para nós, especialmente se por causa de pecado. Missionários são separados do mundo. Deveriam viver padrões elevados. E a maioria absoluta vive. Mas ainda são jovens . E humanos. E erram. E se pecam, precisam ir embora. Lembro-me ainda do primeiro caso que tivemos. O missionário sabia que teria que ir embora. Já veio com as malas ... chorei muito. Ainda sinto um grande amor por ele. De longe tentamos acompanhar seus passos, para ajudá-lo a se recuperar, mas não viver de acordo com o que sabemos ser certo trás uma enorme angústia. E ele ainda sofre. Há outros que não se vão já na trilha do arrependimento. Para esses parece que não há muita esperança por agora. A cabeça não se curva ao ensino e à mudança de atitude. Sofri menos com esses. Há ainda os que se vão por problemas de saúde. Já tivemos 3. Uma pena!! Uma delas chorou muito . Queria sinceramente ficar. Machucou os joelhos ao cair subindo correndo uma escada. Tentamos por 5 semanas de fisioterapia. Quer voltar, mas sendo americana, fica mais difícil. O visto vence com um ano e se ela não está aqui, dificulta a reentrada. Assim, geralmente acabam por voltar para a missão, mas em outro lugar. Ainda aprendo como as coisas se dão nesses momentos de tensão. Há sofrimento, mas há sempre esperança também. Para compensar, um bom grupo, o último a sair ainda conosco chegou essa semana. Dez bons rapazes e duas moças. Inclusive alguns com quem tinha tido contato via Internet. Do outro lado, mal o grupo dessa semana chegou em casa e fazem-me contato. Agradecem, expressam amor e dão notícias da adaptação estranha. Mantenho contato com muitos deles e sempre é uma alegria quando me escrevem. Geralmente são eles que me procuram, mas faço questão absoluta de responder rapidamente a cada um deles. Elder Crose, meu amigo com quem saí tantas vezes para ensinar e que vi crescendo “às alturas” saiu essa semana. Vou sentir falta desse menino imberbe, um grande homem naquela aparência de adolescente. Tão sério,compenetrado, cioso das bênçãos que recebeu em sua família por seu trabalho dedicado. E trabalhou até o fim. Coisa boa de ver. Foi nosso financeiro e dizia-se um homem sem coração, bem frio, até o dia em que o vi chorar ao prestar seu testemunho de saída, avaliando que quando menino fazia as coisas de menino, mas agora chegara a ser homem. Concordo plenamente.


Diogo vai muito bem na BYU TV. Está todo feliz fazendo seus contatos com as TVs a cabo daqui. Tem falado com peixe grande e tem reuniões marcadas com o pessoal da TVA, da SKY e da NET. Quando reclamamos das notas, ainda tem uma boa desculpa, como sempre teve. Mas parece-me que tem certa procedência. Vai logo argumentando (quem não conhece...) que notas não são tudo e que a experiência que está ganhando conta mais pontos. Quer voltar para terminar os estudos lá. Mas desistiu da matéria nesse “Summer term” para ter mais tempo para se preparar para a missão que se aproxima. Esteve ocupado com exames médicos e entrevistas e fazer óculus e tirar carteira e ... é realmente puxado. Está feliz tendo um pouco mais de tempo livre. Esclareci: o que mudou não foi deixar de estudar esse período, mas estar sem uma moça ocupando-lhe a cabeça, já que a última está em Sampa em férias. Sobrou tempo! E miolos. Lucas Simplício, o fiel amigo de sempre,concorda. Afirma-me que tem aprendido muito, uma vez que pela primeira vez na vida teve que realmente se esforçar para se destacar. Aprecia esse ambiente desafiador e , para um brasileiro, tem-se saído bem. Muito bem. Mas, sempre acho que poderia fazer mais... isso o entristece, eu sei... mas eu sei, melhor que qualquer um, do potencial que ele tem. E da constante necessidade de ser tirado de seu lugar comum. Outro dia tivemos uma conversa interessante. Elogiei-o por ter caminhado a primeira e a segunda milhas enquanto nos EUA. Afinal, morou sozinho, estudou, trabalhou, fortaleceu-se espiritualmente, cresceu. Ele replicou com o que pensara em meu coração e não tivera coragem de falar: “ Mas mãe, você ainda acha que eu poderia ter caminhado a terceira”. Não sou só eu que tenho consciência da sua capacidade...



Estamos às vésperas de tê-lo com o chamado missionário em mãos. Remeteu sexta dia 11 , após o que nos telefonou muito emocionado, relatando ter tido um momento muito sagrado que preferiu manter em segredo até poder nos contar pessoalmente. Não poderíamos receber maior presente de aniversário de casamento!!! Imaginávamos que o chamado chegaria pelas mãos de nosso amigo Fernando Silva, do Departamento Missionário nessa sexta, mas ficou postergado para a terça que vem. Estou ansiosa e orgulhosa. Os planos vão bem... isso é criar um filho para o Senhor! Onde será que ele estará nos próximos 2 anos?
Nat está faceira, em Belo Horizonte. Vai ficar 10 dias. Amigas, parentes, quer ver todo mundo. Quando perguntei se tinha realmente visto todo mundo, respondeu-me que não existe mais “todo mundo”... está meio... sem lugar. Já declarou-me que sente falta do movimento dos missionários, até sente saudades de Santa Maria. É uma menina muito pura e determinada. Dois fatos essa semana nos lembraram disso. Ainda aqui, um de nossos missionários, E W Ferreira, imitou como sempre faz, a risada do Sílvio Santos. Ela olhou aquilo e começou: “eu sei quem é esse, deixe-me lembrar... quem mesmo? Eu sei que conheço de algum lugar...” Os outros missionários mal acreditavam... mas ela finalmente se lembrou. Ela não vê televisão aos domingos, foi a conclusão. Mas a verdade é que vê muito pouco de televisão. E quando a novela começou e mamãe não desligou a tv, saiu do quarto. Mamãe me relatou: “tive que desligar para que ela voltasse”... No final do Semestre esteve cansada. Natural para quem tem tantas atividades, mas o mais sério é o horário que está dormindo. Isso não é saudável, mas ela insiste...Parece a coruja oculta em cada um de nós...
Estou fazendo o papel de compiladora dos e-mails dos “ meninos da ala Pampulha”. Aqueles nossos amigos de sempre: Gil Filho, Stéfano Gatto, Franklin, Lucas Lage, Juninho, Diogo e eu e Rodrigo. Todos missionários ou quase. Eles me escrevem com a autorização do Presidente de Missão de cada um deles e eu coloco tudo junto para enviar a todos. Que delícia tem sido!! Eles se amam, e se edificam. Estão juntos nessa obra. Às vezes deixam de escrever, mas aprendi a respeitar tempo de missionário. Achava que eram uns à toa, no bom sentido, e embora por conta da obra missionária, achava que essa podia andar a passos lentos. Hoje vejo que cada minuto é precioso e cada minuto tem seu destino, geralmente de alcance eterno. Já estiveram envolvidos em algo tão sério???
Dia 06 e 07 de julho estivemos em Quaraí, “o sol” ( daí a palavra quarar) para a Conferência de Distrito, cidade do Claiton, que casou-se com a Vivian da Ala Pampulha e minha ex-aluna no Seminário (idos tempos...). Quem diria que um dia iria por aquelas bandas? É de lá que vem a foto do termômetro marcando 118 graus Farenheit (47 graus centígrados... aff!). No sábado a noite, para fazer charme (e porque Quaraí tem 25 mil habitantes e 1 restaurante onde já tínhamos almoçado) , fomos jantar no exterior, no Uruguai... numa Parrilha, mais carne... haja... eles são filhotes de onça... É vizinha de Artigas, que tem por volta de 70 mil habitantes. Os costumes e a relação com a fronteira são interessantes. Todos falam ou compreendem muito bem o espanhol e o português. Papel higiênico, material de limpeza, óleo, arroz e refrigerante são mais baratos aqui. Passam constante pela ponte que liga as duas cidades. Já os pães, doces, shampoos, carne, eletrônicos principalmente, fazem o caminho inverso. Tenho comprado muito pão naquelas padarias de lá, principalmente no Supermercado Tata, que tem de tudo. Achei até Nhá Benta de excelente qualidade. Lembraram-me os tempos de Nhá Benta da Kopenhagen, com a diferença de custarem menos de R$1,00, somente $10,00 pesos. Motos e carros lá são muito mais baratos, mas sofrem um certo controle do lado brasileiro. Ali na cidade, sem problemas, mas já apreenderam motos emplacadas no Uruguai que trafegavam pela “faixa” (estrada), relataram-nos.
Emprego é melhor no Brasil e não raros são os Uruguaios proprietários de pequenos negócios no lado brasileiro. E não poucos os fazendeiros brasileiros proprietários de grandes extensões de terra uruguaia. Em comum, tem o hábito de sestear. Abrem o comércio bem tarde, fecham para almoço e séstea até às 3 da tarde e às 8 da noite desista de comprar qualquer coisa. O casal Rizato, um casal missionário nosso que mora em Quaraí há 9 meses, contou-nos de sua adaptação aos hábitos interioranos. A melhor padaria da cidade em fevereiro fechou as portas, sem mais aviso, para férias coletivas, voltando a reabrir somente em começo de março. De outra feita, marcaram horário numa cabelereira, dona de um salão, para Sister Rizato pintar o cabelo. No horário, bateram e bateram, mas na porta errada. Mais tarde, meia hora depois, voltaram e conseguiram falar com a responsável,que tranquilamente avisou: “Procure outra, agora comecei a lavar roupa e não vou parar...” É assim, vender, ou prestar serviço é um favor, feito aos incautos cidadãos acostumados a um outro ritmo. Isso também acontece em Santa Maria. Outro dia liguei no sábado de manhã para uma confeitaria que só faz tortas e salgados sob encomenda. Queria uma torta para segunda a noite. A resposta tranquila foi: “Prá segunda não dá tempo... quando for assim ligue com antecedência, na quarta ou na quinta, no máximo...” A ficha não me cai...Será que a Bahia é aqui? De qualquer maneira, a fronteira, os famosos pampas gaúchos, é a parte pobre do estado. Herdou uma tradição latifundiária e de pouco valor agregado, na tradição da criação de gado extensivo e de poucos recursos tecnológicos. As grande propriedades sendo progressivamente dilapidadas no financiamento extorsivo e nas partilhas de herança. Contraste com o norte de colonização posterior, européia, com modelo diferenciado e mais produtivo.
Recebemos essa semana um casal de missionários e nenhum dos dois fala Português. Vamos deixá-los aqui em Santa Maria para terem um semestre de aula de Português para Estrangeiros na Universidade Federal. São corajosos. Na sexta saíram com as sísteres e voltaram encantados. Acreditam que nunca falarão como Sister Oliveira e Sister Cândido, ( e não falarão mesmo... não são brasileiros!) mas tenho certeza que irão progredir muito. Hoje com cara e coragem bateram em portas, fizeram oração e prestaram testemunho. Visitamo-nos a noite e era um entusiasmo só! Acho que é o que seremos um dia como casal, indo parar na Africa, Cabo Verde, China e sei lá onde mais... Estou disposta. Adoraria viver uma outra cultura. Especialmente se pudermos servir sob a liderança de algum de nossos missionários.
"O Senhor não questiona nossa capacidade nem nossa incapacidade.
Ele somente questiona nossa disponibilidade.
Se demonstrarmos que somos confiáveis, Ele nos capacitará".
-Elder Neal A. Maxwell












