Capítulo 21
Olá todo mundo!!!
Temos vivido dias familiares muito especiais. A chegada do chamado do Diogo e esse tempo de preparação para passos tão importantes na sua vida são especiais. Como todos já sabem, vai servir na Missão Rio de Janeiro Norte, a partir do dia 25 de setembro, lugar tão conhecido nosso. Acho que foi piedade divina permitir-me conhecer o lugar onde ele vai estar. Morreria de curiosidade se não fosse assim. A missão é um tempo mágico. É quando um rapaz de 19 anos (18 no caso do Diogo que é filho de Presidente de Missão) decide servir a Deus servindo a seu próximo. Vivem uma vida muito simples nesses 2 anos para rapazes e 18 meses para as moças. Almoçam com quem os convida, geralmente membros da Igreja ou amigos. Recebem bem pouco dinheiro para as outras coisas, não namoram, não vêem tv, não ouvem música (exceto hinos). Não usam Internet (exceto para falar com a familia uma vez na semana), dormem às 10 e meia e levantam-se às 6 e meia. Trabalham duro (especialmente os mais dedicados). E são surpreendentemente felizes. Quando vão embora, morrem de saudade desse tempo em que aprenderam a viver um outro modo de vida que os inspirará por todo o tempo. Por isso tudo ficamos tão animados. Diz Rodrigo que será o fim do treinamento Jedi dele...
Visto Diogo estar nos EUA, imaginávamos que poderia ser chamado para outros lugares do mundo (especialmente EUA, Japão, África). Mas ficamos mais felizes ainda dele ter sido chamado para servir no Brasil. Nosso povo é maravilhoso!!! Ele vai amá-lo ainda mais. Na noite do chamado usamos os recursos tecnológicos e vimos o exato momento em que ele, sentado no chão, caiu para trás rindo e surpreso ao ver a designação, muitos amigos em volta se alegrando. Cabo Frio, Rio de Janeiro, Vila Velha, Guarapari terão outro sentido na vida dele. Sua área inclui Rio de Janeiro (Estaca Andaraí), Niterói, Teresópolis, Distrito de Macaé, Campos, Cariacica, Vila Velha, Vitória, Distrito de Colatina. As duas últimas semanas foram para preparar-se para vir embora. Há tempos não vinha comprando roupas comuns e a bagagem era pequena para um ano fora. Mas encheu-se de camisas brancas, calças sociais,sapatos resistentes, capa de chuva, terno. Fiquei em casa plugada no telefone voip e fui a cada loja com ele. Anotava os preços e as características e ... fiz as compras com ele, como sempre sonhei. Dois dias foram suficientes.
Saiu de sua casa lá no dia 06 de agosto, já saudoso, indo a California resolver as questões com o Exército. Ficou com a Tia Michelle, diz que passou um dia inteiro sozinho na praia em Huntington Beach, onde ela mora. Por um bom tempo não terá essa chance novamente, embora tão perto de águas conhecidas... missionários também não nadam! Veio embora no dia 08, quinta, chegando em Belo Horizonte, onde estará até o dia 15 quando vem nos encontrar. Estou tão animada para esse dia!! Vamos juntos ao Templo de Porto Alegre. Ele será ordenado um Élder no mesmo dia pelo pai. Mamãe vem junto com ele, mas Vó Naná fará falta, com certeza. Fico pensando na alegria que terei em estar com um filho na Sala Celestial. Lá sinto ainda mais forte que as familias são eternas. Laços eternos de união que trazem consolo e paz ao nosso coração. Ocasiões memoráveis.
Nat foi a BH nessas férias. Sentiu a diferença da passagem do tempo. Nem sempre as amigas estavam tão disponíveis como quando no começo da juventude. A vida vai ficando mais séria e algumas estão trabalhando. Saiu com Leonardo, o grande amigo do irmão, que a levou ao camelódromo da Oiapoque. Acho bonitinho como ele cuida dela. Visitaram Vó Tantão, tão debilitada como está. Fico tão feliz de ver que plantei amor e consideração pelos parentes no coração de meus filhos... e mesmo no dos amigos dos meus filhos. Eles sentem esses laços eternos aplicados no seu dia a dia e honram a herança que receberam de tantos. Fiquei feliz que as amigas daqui tivessem ido me visitar no Escritório durante a ausência dela. Estou começando a ter mais intimidade com as meninas daqui. Outro lembrei-me tanto de minha própria juventude quando dei com elas com as caras verdes, máscara de abacate e mel , embelezando-se no tapete da sala com pepino nos olhos. Outro dia li no diário que passara uma tarde como essa delas: máscara de gema para a minha pele seca e de clara para a pele oleosa da Raquel... Eco!!! Cheirou um mês!!!
No início do mês estivemos em São Borja para uma Conferência de Distrito com frequência récorde de 420 pessoas e muitos visitantes não membros, o prefeito inclusive. São dois dias de treinamento intenso, em que treino as mulheres e Rodrigo a liderança do Sacerdócio. Sinto-me a vontade para falar de assuntos às vezes delicados, com clareza e objetividade. Fico impressionada como aqui é comum comer-se durantes as reuniões. Por vezes parece picnic... Temos falado sobre isso. Engraçado também como é que eles saem rápido após as reuniões. Lembro-me com saudades da Ala Pampulha, em que ficávamos até uma , uma e meia da tarde conversando, “trocando figurinha”, consolando corações. Aqui, meio dia e dez não tem ninguém mais nas Capelas. Podem ser instrutores em treinamento de evacuação para emergências... Ainda falo sobre as famílias sentarem-se juntas. E fico lembrando de como expulsava os amigos, cada qual para o seu banco, com seus pais... era meio megera mesmo. Mas funcionou e ainda hoje Nat nem fala em sentar-se longe de nós. Sentimos que há perdas importantes com essa necessidade preemente do gaúcho de almoçar ao meio dia. Aliás, aqui restaurante que só abre para almoço anuncia "somente ao meio dia". Mas essas visitas são sempre muito boas. São Distritos pequenos que lutam com a falta de preparação e até mesmo com a imaturidade daqueles que servem com dedicação com os poucos recursos que tem. Ficam felizes com os treinamentos.
Aproveitei para visitar um artista plático, Rossini, que trabalha com cerâmica e figuras femininas guaranis. Deixei uma peça encomendada, uma lavadeira guarani. E ele foi tão receptivo! Quando falei que estava me iniciando nas artes da cerâmica, ofereceu-se para me ajudar a compor a minha prenda, a figura que tenho procurado por aqui em vão. " Venha a próxima vez com tempo e gastaremos um tempo trabalhando juntos". Essa é a maravilha do brasileiro em sua melhor forma, aquele que ainda leva no peito essa generosidade. Na viagem, levamos o casal Laing, americanos recém chegados , desprovidos do Português, mas ambos muito animados em conhecer um lugar onde possivelmente serão designados a trabalhar em 5 meses ,quando estiverem falando um pouco mais.
Falando neles, ainda fico maravilhada com a coragem que têm. Estão se virando muito bem. Felipe Martignoni, um médico recém formado, está ajudando muito uma vez que fala Inglês. Estamos organizando um Curso de Inglês na Capela que imagino será um sucesso, dada a proximidade da Universidade. Também teremos classes de Conversação que terão lugar na própria Universidade para pessoas que já falam e querem somente manter. Eles, por sua vez, estão inscritos num curso de Português para estrangeiros que começa semana que vem. Espero que os ajude. Além disso, ela é professora de Piano e fiquei surpresa com a demanda reprimida que encontramos aqui. Anunciamos com um cartaz em cada capela no domingo e muitos ligaram no mesmo dia. Convoquei para uma Reunião na segunda a tarde e ficamos surpresas com a presença de 25 pessoas interessadas. Anunciei as condições desafiadoras do Curso, exigindo uma hora de estudo diário, uma vez que teremos somente 5 meses para desenvolver todo o curso, sendo nosso objetivo que eles saiam aptos a tocar os hinos na Igreja. Desafiador. Mas a turma permaneceu e na quarta e quinta da mesma semana já tivemos aula para 14 selecionados. Sister Pucket e Elder Mendenhall tem ajudado na comunicação. Tarefa difícil essa de descartar alguns. Mas fizemos juntos, eu, Sister Laing e Elder Favreau, chamado como intérprete para Sister Laing mas com idéias muito boas. As aulas serão em dupla e até os horários foram definidos naquela segunda. Para quê deixar para depois? Ainda mais que saímos a semana inteira para as Conferências de Zona de Alegrete (super frio...), Uruguaiana e Livramento. Acho que Sister Laing ficou meio assustada comigo... em questão de horas, de sexta,quando o cartaz foi feito, a segunda, tudo se definiu. Poucas pessoas tocam aqui. Será uma bênção. Ainda concedemos como empréstimo um teclado a cada interessado. Temos uns 30 no Escritório aguardando a implementação do Programa de Teclados da Fundação Harmon, que empresta teclados às pessoas interessadas em aprender. O problema esbarra sempre na qualificação dos professores, muitos míopes guiando cegos...


Sister Laing a princípio queria privilegiar rapazes e foi interessante explicar que em breve aqueles rapazes estariam na Missão, voltariam e seriam conselheiros no Bispado, presidentes de rapazes, etc., o que os impediria de ajudar com a música. Tem sido divertido enxergar com outros olhos as diferenças entre a Igreja aqui e nos EUA. Isso nem passaria na cabeça dela. Temos um Missionário aqui, de 25 anos, que já é Sumo sacerdote (ofício no Sacerdócio que vem depois de Elder, explicação para quem não conhece esses termos). Em condições normais , em lugares onde a Igreja estivesse plenamente estabelecida isso não aconteceria... Mas essa é a nossa realidade. Recebemos missionários de distritos pequenos, de ramos de missão. Quando voltarem, se conseguirem se estabelecer na própria cidade, serão de grande ajuda. O problema ainda é social e a evasão para os grandes centros ainda uma constante. Seria bom se pudessem ajudar a Igreja nas suas cidades... aliás, esse é o trabalho de todos nós: estabelecer a Igreja. Simples assim !
Por isso fico feliz a cada notícia de casamento que me chega. Especialmente se são membros fiéis da Igreja , indo ao Templo e sendo selados dentro de laços eternos. Essa é a melhor maneira de cumprir o propósito acima. Entre os brasileiros já se casaram, que eu saiba: Elder F Silva, de Fortaleza, Elder Guimarães de Recife, Elder M de Oliveira, de São Paulo, Elder Andrade, de Fortaleza, Sister Dias, de Lagoa, em Belo Horizonte. Vejam a foto que me fez feliz: três de nossos missionários (Sister Dias, o marido, Elder Nogueira com a namorada Sister Rosa) na porta do Templo no Selamento da Sister Dias... De americanos já recebemos convites de Elder Yeats, Salt Lake ( com quem falo com frequência), Elder Hurst (outro que sempre me liga- uma piada... outro dia me avisou que se mandasse e-mail pra ele deveria telefonar para avisar, de tão pouco que usa a Internet, homem simples, muito bom, bagual de Blanding...), Elder Anderson, de Idaho. Temos aí pela frente Elder Johnson, Elder Coates, Elder Keller, Sister Lima, outros tantos, ou "outros quantos" , como dizem aqui.
Tivemos dias duros na Missão na metade de julho. Três missionários foram embora por pecado. Estava triste demais, até que no dia seguinte cheguei carregada de coisas na Rodoviária e liguei pedindo ajuda. E deparei-me com uns 15 missionários dispostos a ajudar. Nat olhou e disse: "Mãe, olha aí seu exército do bem!!!" Fiquei tão consolada... A cada vez fico admirada de ver tanta bondade , no geral. São muito dados e raramente pensam em si. A alegria vem da felicidade dos outros. Seria um mundo melhor se vivêssemos assim.



Continuo em contato com vários que se foram. Escrevem-me contam das namoradas, falam da saudade. Sem dúvida, saudade do tempo em que mostraram o que tinham de melhor. Coloquei fotos deles no Facebook e no Orkut, fotos das saídas. Ainda estava nesse processo e recebi um recado no Orkut de um pernambucano, Elder Alves, reclamando que gostara muito das fotos, pena que ele não estava incluído... Ainda nem tinha terminado... Tive que achar graça... Calma, Elder Alves!!! Vou chegar lá!!, avisei. Outro me escreveu agradecendo o interesse e confessando que sentia-se amado, mas lamentava não estar sozinho.. "sou ciumento, Sister... " Tive que lhe escrever que coração é terra infinita...
Ando muito feliz com nossos Assistentes de agora. Sinto que meu coração se liga ao deles e vejo-os como amigos de longa data. Elder M Lopes de São Bernardo é especial. Tão puro e generoso em tudo o que pensa de todo mundo. Para ele não tem gente ruim no mundo. Tem crescido muito e sinto que me ama de todo o coração. Eu o amo também. Quando me vê saudosa de Elder Kennedy (ainda sinto saudades demais... que coisa!!), canta pra mim: "Pense em mim, chore por mim, liga pra mim, não não liga pra ele.. pra ele.. não chore por ele..." Faz-me rir. Elder Queiroz é um velho conhecido, ainda que pelos pais , de famílias tradicionais na Igreja. É sobrinho do Elder João Roberto Martins Silva ( companheiro de Quórum do Rodrigo quando Setenta), neto do Irmão Walter Guedes de Queiroz, que foi presidente da Missão Porto Alegre e Presidente do Templo de Porto Alegre, sobrinho do Presidente Walter Guedes de Queiroz na Missão Floripa, do Stéfano e filho do Ramirinho ( quem se esquece do " não tem o i!!!!" .. .que regeu o coral na comemoração dos 10 anos do SEI no Brasil isso na década de 70) e de Maria Cristina. Menino bom, canta super bem. Viajamos cantando hinos em três, quatro vozes. Eu no contralto, ele no Tenor, presidente por vezes no Baixo, Elder M Lopes no Soprano. Fica bonito e nos divertimos. Outro dia, voltando de Livramento, resolvemos pegar uma estrada ainda não inaugurada. Sabíamos que havia um desvio em estrada de terra de uns 10 quilômetros, mas achamos que valia a pena, ainda que fosse noite. Passáramos lá antes em outra ocasião e só não podia estar chovendo. Com o tempo bom fizemos o caminho, mas nos perdemos na entrada de volta à estrada... e andamos , andamos... e oramos... e oramos... e rimos ...e rimos... quando ofereci um chocolate para Rodrigo, ele aflito respondeu como Davi quando estava com o filho doente: "Não comerei nem beberei até que achemos a estrada..." E eu repliquei: "Comei, bebei e diverti-vos , porque amanhã nos perderemos..." Foi divertido e a co-piloto insistiu numa solução que se provou ser a certa. Com mapas e direções sou melhor que Rodrigo. Chegamos a Santa Maria, gastando mais tempo que se tivéssemos seguido pela estrada regular.
Para vocês rirem como eu ri: Temos um missionário guatemalteco, residente desde os 8 anos nos EUA, que outro dia teve a oportunidade de realizar uma ordenança de batismo. Em cima da hora procurou o Líder de Zona, outro missionário mais experiente e pediu-lhe explicações de como proceder. " Tenho um plano, argumentou confiante, você me dita e eu repito as palavras, (que precisam ser exatas): “Tendo sido ...” “tendo sido... “ “comissionado...” “um missionário...” Não houve quem não risse!!!










