Capítulo 23
Dias de grandes emoções, muitos sustos e muitas bênçãos!
A experiência de despachar um filho para a missão envolve um misto de sentimentos e emoções. Ficamos felizes porque tudo o que planejamos para nosso filho querido começa a se cumprir ali. Sabemos que é o fim do treinamento Jedi, como diz Rodrigo. Mas não deixa de ser dolorido, como bem definiu Nathália. Pensar em 2 anos é pensar em uma eternidade para se estar longe de alguém a quem se ama com todo o coração. Mas fico pensando na plenitude que meu filho vive, cumprindo o propósito de sua existência, escrevendo bonito a história da sua vida segundo o plano de Deus para ele. E mais ainda: fazendo amigos que lhe serão eternamente gratos, como somos "àqueles que nos trouxeram para a luz." No dia que deixei Diogo no Aeroporto encontrei um rapaz, recém batizado na Igreja, 2 semanas. Dezoito anos, dezenove em abril (mais novo que Diogo), casado desde maio desse ano e um filhinho de 1 anos e meio. Dá para acreditar? Fiquei tão feliz que Diogo estivesse agora no Centro de Treinamento Missionário. Um alívio para um coração de mãe. Uma esperança de alegria e felicidade ainda mais completa em alguns anos. Como Diogo disse na semana anterior: “Mãe, em dois anos casar-me será um mandamento!!” Isso no maior entusiasmo. Acho que vivo um casamento muito feliz, onde eu e Rodrigo estamos em primeiro lugar, a frente dos filhos, porque ambos são tão casadoiros... Nat frequentemente entra em crise e afirma, chorosa: "Mãe, quero um marido!!!"
A semana gaúcha foi animada. Estávamos na terça em Alegrete, tradicional reduto da gauchada. Escolhemos o aniversário de um CTG para comparecermos. Devo dizer que o jantar foi muito ruim e não ficamos a tempo de ouvir o conjunto que se apresentaria, já que nos levantaríamos cedo no dia seguinte. Mas no jeito hospitaleiro do povo daqui fomos até entrevistados ao vivo pela rádio local, falando de nossa escolha de curtir as tradições em solo alegretense. Na sexta fomos a um baile tradicional, quase todos piuchados ou em traje social como nós no Centro de Pesquisas Folclóricas Piá do Sul. Já estivéramos lá o ano passado e nos encantamos com as apresentações das invernadas de dança. Levamos conosco o casal Laing e Dutra, bons amigos. Logo a Patronagem (diretoria) se aproximou gentil e fizeram de tudo para nos agradar. Quando perguntei se teríamos apresentação de Chula (a dança dos peões com a lança no chão), Walmir, um membro da Igreja menos ativo que se aproximou de nós para conversar e explicar várias coisas, moveu mundos e fundos e para minha surpresa logo apareceu o campeão do estado nessa categoria, o rapaz piuchado que se vê na foto comigo, uma prenda e o casal Laing. Mais um pouco e nos levaram ao palco anunciando-nos como "alguns mormons que estão aqui para conhecer nossas tradições, com um casal amigo de americanos". Aproveitamos para falar a que viemos ao Rio Grande do Sul. E o que o casal americano fazia aqui. Conseguiram alunos para o Curso de Inglês. Nem acredito que usei o microfone na frente de mais 400 gaúchos apaixonados por suas tradições. Minha admiração pela maneira como preservaram e recuperaram essa cultura me encantam cada vez mais. Tenho escrito sobre isso no Bah-tchê-zar, o jornal semanal da missão.
Diogo e Nat arriscaram-se no bailado depois do jantar e das apresentações. Nat revoltada porque o irmão não parava de rebolar, coisa que o gaúcho não faz. A verdade é que adaptou o passo do forró e xote à música daqui e deu... Nat se assenta. Lá vem a Beth Dutra com uma prenda e um peão para as primeiras aulas dos dois. Pouco depois Diogo volta faceiro, concluindo: "mãe, o segredo para não rebolar é juntar as nádegas..." Ao final da noite estava com os glúteos bem trabalhadinhos, doloridos que só... No dia seguinte bem cedo mandou-se para Cruz Alta, numa atividade de dia inteiro dos jovens acima de 18 anos. Não queríamos que fosse, até porque queríamos sua companhia, mas quem conhece, sabe .... E lá se foi. Depois queria dormir por lá. Não concordamos e pedimos ao irmão Peixoto que o deixasse na Rodoviária. O bom amigo foi, descarregou Diogo e voltou para a atividade. Só que nesse meio tempo a carteira do guri ficou dentro do carro, perdida. Diogo tinha hora para embarcar. Um ônibus às 10:15 e outro às 4 e meia da manhã. Explicar e explicar a situação para a moça do guichê não adiantou. Ela dizia: "Alguém virá te buscar". E ele garantia a ela que não sabia onde estava, onde morava, qual era o telefone dos pais (sabia o telefone de casa, mas saíramos para jantar), não conhecia ninguém em Cruz Alta e a única esperança era que vissem a carteira. Tentou a barganha: tinha uma camiseta na mochila que podia dar em garantia. Tanto fez que convenceu o motorista do ônibus das 22:15 a trazê-lo de carona. Diz ele que ver o pai na Rodoviária de Santa Maria esperando por ele e com dinheiro para pagar o motorista foi das suas maiores alegrias, maior do que vê-lo depois de um ano morando fora.
Nesse sábado farroupilha depois do desfile fomos almoçar com os missionários do Staff e os gaúchos do Piá do Sul. Costelão: quartos de boi assados inteiros, tipo fogo de chão. Bem macio. Arroz, maionese de batata só para fazer charme. Rodrigo ficou pra trás na "servida" e ganhou uma costela inteira só para ele, trazida por uma gauchão que na véspera ficara fã do Diogo. Essa festa envolve a todos e é a comemoração da Revolução Farroupilha - o mais longo e um dos mais significativos movimentos de revolta civil brasileiro, envolvendo em suas lutas os mais diversos segmentos sociais - relembra a Guerra dos Farrapos contra o Império, de 1835 a 1845. A data e o fato ficaram registrados na história dos sul-rio-grandenses como o início da Revolução Farroupilha. Nesse movimento revolucionário, que teve duração de cerca de dez anos e mostrava como pano de fundo os ideais liberais, federalistas e republicanos, foi proclamada a República Rio-Grandense, instalando-se na cidade de Piratini a sua capital. A Semana é um momento especial de culto às tradições gaúchas, transcendendo o próprio Movimento Tradicionalista Gaúcho. Nos CTGs ( Centros de Tradição Gaúcha) essa é uma semana de muitas atividades. A Chama Crioula, um fogo simbólico que é trazido cerimoniosamente pelos cavalarianos a partir de Porto Alegre no dia 14 de setembro fica acesa em cada CTG durante toda a semana. São 43 somente na 13ª Região Tradicionalista, a que envolve Santa Maria e arredores. Trinta regiões em todo o estado... Imaginem a quantidade de peões e prendas envolvidos em manter suas tradições! Todos os dias há café, almoço e jantar para os associados e convidados. A cada dia parte do cardápio tradicional é servido e o ponto alto são os Jantar Baile, quando a indumentária tradicional se faz necessária. Sempre há grupos de música tradicionalista apresentando-se ao vivo, na função de acompanhar os vários grupos de dança: infantis, juvenis, adultos e Xirus (adultos da maior idade) em 23 tipos de dança tradicionais. Eventualmente se apresentam grupos somente de peões na Chula, uma dança de desafio entre homens.
Quanto a mamãe, tivemos um tempo muito bom com ela aqui. Consertou gravatas, mimou os missionários, adorou estar com eles e os netos. Mas na terça, véspera de ir embora, caiu e quebrou o braço. As notícias se tornaram mais e mais preocupantes e no sábado seguinte (dia 13) ela foi embora com Dona Emerita, que se tornou uma boa amiga. Uma série de exames felizmente mostraram, até agora, que o problema é localizado. Continuamos orando e exercendo nossa fé. Obrigada pelas orações de muitos de vocês. Como diz Diogo é hora de praticarmos a máxima de que Deus vai cuidar de todas as coisas.
Diogo mostrou-se o mesmo de sempre, médico e monstro. Mais médico que monstro. Vai amadurecendo. Cuidou das avós com desvelo. Da mamãe, sua avó Pia, com paixão, quando esta quebrou o braço na última semana aqui. Filosofava muito comigo, tentava entender os muitos " adeus" que teve que dizer no último ano e pouco, as paixões que viveu e deixou, os novos amigos que fez, os planos para o futuro. Quando saiu de BH achava que não poderia jamais viver sem os meninos, amigos de sempre. Mas descobriu que podia e faria novos amigos em Provo, amigos para sempre também de quem sofreu ao se despedir. Um dia me disse: "Mãe, sou um mutante: só não mudo de sexo, de família e de religião" . Ele, eu e Deus... oba!!!!! Sou permanente na sua transitoriedade. Escreveu-nos do CTM e mandou-nos um breve e-mail. Queria saber mais, vou sempre querer saber mais. Mas tenho um amigo que disse que ele vai adorar que eu seja assim prolixa ao escrever. Vou achar quem leia...
Depois que as coisas se acalmaram por aqui e ficamos só nós quatro (cinco com Fernanda) e menos viagens, tivemos momentos que ficarão registrados. Uma tarde deitamos nós três (eu, Nat e Diogo) e lemos o Livro de História Pessoal dele. As histórias nos emocionaram, rimos juntos. Ver seu testemunho, aquele que ele usa agora para deixar tudo, crescendo aos poucos e fazendo diferença na sua vida. Conta-se que aos 3 anos ele me colocou na cama (como sempre fez, com beijinho de boa noite... sinto falta...) e foi deitar-se. Não conseguindo se cobrir, me chamou: "mamãe, vem me cobrir que Jesus que sempre ajuda todas as pessoas não pode me ajudar hoje porque está muito ocupado..." De outra feita, ele com 4 anos; passamos em frente a uma Igreja cheia de gente. Ele depressa falou: "Mamãe, Jesus está lá dentro!" Pensei que faltava lhe ensinar sobre a Restauração do Evangelho... e ele completou: "Ele está lá dentro avisando para todas essas pessoas que essa não é a Igreja verdadeira!" A designação dele foi um momento sagrado e reservado. Não tínhamos muitos presentes. Lembrei-me de meu casamento no Templo quando o oficiante falou que sempre nas ocasiões mais sagradas não há muitas testemunhas. A bênção proferida pelo Presidente Rubem da Estaca Santa Maria foi muito linda e prometeu-lhe proteção e saúde nesse período. Também implorou que Deus o encaminhasse àqueles que estiverem prontos para ouvir a mensagem. Tenho tanta certeza no meu coração de que ele fará um grande trabalho e será protegido por Deus...
Nossa maneira de acariciar e agradar engordou a todos. Muita comida boa, todos os dias, que é assim que demonstramos amor. No dia de ir embora, Nat preparou um lanche da manhã com pão de queijo, waflles, etc. etc. Foi seu adeus. Vê-lo acompanhando Nat chorosa até na sala de aula num último adeus, foi triste. Saímos para Porto Alegre onde fomos novamente ao Templo. No dia seguinte bem cedo levamo-no ao Aeroporto, ouvindo Carpenters, por escolha dele. Ele estava tão entusiasmado que eu nem chorei... Só umas lagriminhas de nada até agora... parabéns para mim! Não sei quanto tempo dura...
Nathália segue nos preparativos para nos deixar também. Está animada, recebendo e escrevendo e-mails em Inglês. Ontem assistiu uma das sessões da Conferência comigo em Inglês. Acho que vai se dar bem. A família tem demonstrado muito interesse e amor. Está na fase de só sair de casa depois de uma hora, literalmente, em frente ao espelho... haja!!!
Por dois fins de semana tivemos a alegria de ver dedicadas duas capelas: Santa Maria e Santo Ângelo. Os missionários foram parte ativa e Elder Queiroz e Elder M Lopes cantando juntos foi inesquecível. Em Santo Ângelo juntaram-se a Elder Hendricks e Elder W Ferreira. Ficou mesmo lindo e emocionou muitos visitantes. No dia seguinte, experimentamos o novo boliche da cidade... estávamos a mais de um ano sem jogar e passamos assim o último p-day de Elder Queiroz. Ele vai deixar saudades. Foi um bom missionário e surpreendeu como assistente. Desenvolvemos um grande amor mútuo. Mais um para sentir falta. Foi um final de semana abençoado, quando tivemos um récorde de batismos na Missão: 58!!! Ficamos muito felizes. Os missionários estão ganhando a visão de que é possível .
Foi bom ensinar os missionários com Diogo por perto. Há tanto que julgo saber sobre esse trabalho que quis compartilhar com ele... Ele tirou xerox de treinamentos, fez cópias de CDs, muniu-se por espontânea vontade. Numa ocasião estava explicando que só somos normais no nosso próprio mundo. Foi uma coisa bem boa ouvir de Elder Mellor que no mundo dele eu era especial.
Beijos a todos vocês, especialmente aos pacientes que lêem essas grandes epístolas!!!
















