Capítulo 33
O tempo se esvai...
Mais uma semana... nem acredito! As semanas passando como horas, os meses como semanas já disse Rodrigo. Estou vivendo um momento muito feliz, embora com certa ansiedade característica do período que antecede as mudanças. Não quero me desfocalizar, mas algumas providências para nossa partida são necessárias e assim é que começo a organizar caixas, separar papéis, materiais, treinamentos. O tempo está passando tão rápido que nem consigo contar... tantas coisas ainda por fazer... desde que cheguei aqui achei que ia organizar nossos papéis da vida de casados. Queria deixar um registro bem feito de nosso tempo na missão... queria organizar os seus e-mails da missão... nada disso está acontecendo... e agora acho que não vai acontecer mais. Meu quarto é uma bagunça de papéis!!! Assunto do programa de teclados, de música, dos distritos, dos missionários, pessoais... ufa! Preciso decidir o que segue conosco para BH... uma coisa ao menos eu fiz: escrevi muito e sinto que registrei muitos sentimentos. Isso vai ficar. Por uma bênção especial registrei muitos e-mails com fotos e agora que perdemos nosso HD externo com todos os registros fotográficos anteriores à missão e também dos anos de 2007 e 2008, fico feliz pelos que estou recuperando nessa maravilha de Gmail... Nem acredito. Além disso, muita informação mais que foi para o espaço... Estamos tentando com uma empresa de recuperação de dados, mas parece cada vez mais improvável. Uma pena.


Estamos de vento em popa no planejamento e construção de nossa casa. Tenho uma boa amiga, Ana Elisa Felicetti, formada comigo em 1987 que agora constrói para nós. Projetar continua a me demandar muito. Quanto mais defino coisas, mais coisas aparecem para ser definidas. Isso é bom, porque significa que tudo está sendo planejado. Minha visão de projeto mudou muito desde que fiz vários projetos compatibilizados e completos. Assim, o grau de exigência quanto a definições aumentou. Quando se pensa antes, o resultado é mais efetivo. E evitamos problemas. O projeto feito a quatro mãos está bem maduro. Muitas horas de telefone num processo impensável sem Internet nos idos tempos em que nos formamos. Mas a amizade e a proximidade profissional foram essenciais para a expressão de pensamentos tão elaborados à distancia. Foi um processo difícil, quase um parto... Senti-me enferrujada demais... as idéias não vinham tão fácil como antes. Mas a casa começa a ser-me deliciosa... como a semente de Alma. É que projetar é um exercício de fé. E tudo tem que existir espiritualmente primeiro. Percebo com clareza esse processo. Assim, vejo que vou amadurecendo o fruto... Está caminhando... meio forçado, empurrado, espremido entre Conferências de Zona, Conferências de Distrito e Estaca, Reuniões, Saídas, Chegadas, doenças, mas está indo e acho que será fonte de grande alegria para nós. Estou equilibrando os pratos...







Em meados de dezembro dissemos adeus a dois de nossos casais missionários, os Sharps e os Laings. Serviram tão fielmente! Apesar da distância que nos separava por estarem servindo em Santiago e São Borja respectivamente, estávamos sempre em contato e eles foram de grande ajuda na preparação dos registros para a organização de estacas que estamos esperando aconteçam antes de nossa saída. Sua maturidade, autonomia, testemunho e desprendimento fizeram com que se tornassem inesquecíveis para aqueles com quem conviveram. Está aí um trabalho de amor que gostaríamos de fazer no futuro.
Tivemos um Natal maravilhoso. Nossas atividades começaram com um Recital da Escola de Música que Nat frequenta na Capela da Rua Appel. Para nossa surpresa, Nat cantou e tocou. A professora Lucimar tão encantada de poder usar aquele salão enorme, com bom piano eletrônico, ar condicionado e de graça. E nós bem felizes por sermos úteis. Ela é muito gentil e tem feito um bom trabalho com Nathália. Tempos atrás convidou-a a ter aulas diárias numa semana, somente para mostrar que com um pouco de estudo ela avançaria muito. Quando quis pagar-lhe, explicou –me com voz suave: “Mas fui eu quem convidou!” Gente boníssima! Levamos um grupo de missionários para cantar hinos de natal e fizemos sucesso. Elder Bryson, nosso assistente ao violino. Elder Monteiro, nosso André de BH ao piano. Ficou tão bom que no dia 25 saímos para cantar de casa em casa. Aliás, uma tradição familiar já há anos, junto com a montagem da árvore com os líderes de Zona na Reunião Familiar do Conselho, nossas plaquetas dando o toque final. Cantamos em umas 30 casas, eu imagino. Nossos amigos, pesquisadores de nossos missionários, recém conversos, membros antigos da Igreja, lugares onde os missionários almoçariam naquele dia. De Camobi a Vila Oliveira. Cantamos para nossa professora de Inglês, Walkíria, cantamos para Ana Maria, de cerâmica e para terminar, cantamos de andar em andar no prédio em que moramos. Muitas portas se abriram, encantados com a sonoridade que vinha da circulação. Portas que não se abririam de outra forma. Quebramos muita resistências por aqui. Lembro-me de quando nem ousavam perguntar-nos a que viéramos, com medo de serem “ atacados” pelos mórmons. Sentia-me uma “ET”... mas agora conversam conosco mais relaxadamente.






Viemos para casa por volta das 3 da tarde para receber os missionários que estavam em Santa Maria. Uma mesa bonita, com tudo de bom: Cookies, brownies, biscoito de passas, frutas, frutas secas, panetone, M& Ms, chocolate, etc. etc. O melhor é recebê-los sem pressa, felizes por estarem aqui. Música de Natal no ar, servos de Jesus Cristo. Que espírito melhor poderíamos gozar? Nathália escreveu-nos um cartão, agradecendo a chance de sentir esse espírito natalino de forma tão especial, no serviço e felicidade de outros. E olha que nem trocamos presentes na noite do dia 24. Tivemos um amigo oculto de R$10,00... ganhei uma pasta com todas as músicas do Jack Johnson que ela fez para mim. Bom demais! Vamos cantar e cantar juntas! Sister Fletcher nos acompanhou todo o tempo. É nossa missionária Sênior e um amor de pessoa. Minha amiga, quase uma mãe pra mim aqui na Missão. Sei lá quem é mãe de quem, porque a lógica seria ela ser a filha, a missionária. E em alguns sentidos é. A verdade é que trocamos. Essa é a boa relação. Mas é uma pessoa de ouro, dessas raras. Ao final, agradeceu-nos o Natal tão especial que proporcionamos a ela. Sabe, missionário é feliz, em qualquer época, até no Natal, longe da família. Desfrutamos!
No dia 22 tivemos em Alegrete uma Conferência de Natal com as Zonas da Fronteira (Missionários de Alegrete, São Gabriel, Rosário, Uruguaiana, Itaqui, Livramento, Quarai). Um dia para eles brincarem, jogarem bola, conviverem, estourarem balões de água na impossibilidade de usarem a piscina. Eu e o Presidente os prêmios preferidos! Tivemos um programa de Natal no começo e ao final distribuímos um pacote com doces americanos que os pais mandaram e meias. A coisa mais útil que um missionário pode ganhar. No dia 29 foi a vez dos missionários de Santa Maria, São Pedro, Cruz Alta, Ijuí, Palmeira das Missões, Panambi, Santo Ângelo, Sana Rosa, São Luis Gonzaga, São Borja, Santiago. Durante as Conferências de Zona eles se deram gravatas que levamos numa atividade de amigo oculto a tarde. Eles fizeram cartões que trocaram entre si com as gravatas. Para as moças, cremes da Vitória Secret... que nos EUA são principalmente marca de roupa intima... precisa ver a cara dos missionários!!! Que piada! Cuidamos bem desses meninos, 95% bons meninos...





Agora em Janeiro já tivemos as Conferências de Zona e foram muito interessantes. Aconteceram depois da saída de Elder Coelho, nosso assistente que ficou por quase oito meses... Saudades daquela alma sincera e pronta a aprender, embora Elder Burnham e Elder Bryson estejam brilhando com sua maturidade no evangelho. Sinto que estamos chegando ao ponto de aproveitarmos bem o tempo, fazermos coisas interessantes, ensinar com propósito. É assim mesmo: quando nos sentimos seguros, está na hora de mudar! Para nossa surpresa e deleite, descobrimos essa semana que teremos nossos amigos Isaías e Soni aqui nos substituindo. Anos de serviço muito próximo em Belo Horizonte. Filhos na mesma idade. Muita afinidade. Esperamos que nossa experiência possa de alguma maneira lhes ser útil.
A história de despedir nossos missionários continua a agora aqueles que pareciam tão longe estar de se irem já nos dão adeus. É sempre muito interessante ver o progresso que atingiram. Recebi o seguinte relato de uma sister indo embora:
“Você me ensinou um padrão decente. Semanas passadas, fui à costureira e ela queria apertar a minha saia e eu falei que não, porque a Sister Myrrha me mata com os olhos! kkkk
Obrigado por me ensinar também a comer verduras. Nunca comi tantas verduras na minha vida!... Obrigado mesmo por me amar do jeito que sou, "trancos e barracos" mas eu sei que você gosta de mim...Jamais vou esquecer de você falar: “Juízo, Sister, juízo”!" Você falou pra mim esses dias - ou ia ter juízo aqui, ou em casa. Eu já sei o que você espera de mim: que eu seja bem decidida e procure resolver as minhas coisas sozinha e que eu tenha mais maturidade. Mas obrigada.:Obrigado por ter usado meu livre-arbítrio. Obrigado por ter me explicado o que é agonia... Eu sei que eu fui medonha e aperreei muito o seu juízo. Mas obrigada por tudo que você fez por mim.”






Nat passou as férias viajando. No início de dezembro acompanhou a turma da oitava série em uma viagem para Beto Carreiro e Balneário Camburiú. Sempre nos sentimos muito tranqüilos com suas escolhas e esse distanciamento não nos assusta. Passou o Natal conosco fazendo questão absoluta de participar das atividades com os missionários, com quem se sente progressivamente mais a vontade. No dia 29 seguiu para o Rio de Janeiro, onde deveria pegar um ônibus para Cabo Frio. Ainda bem que acionamos nosso querido Elder Queiroz porque os ônibus estavam esgotados para dois dias... nosso guri providenciou tudo e conseguiu colocá-la numa van, que ela avaliou seguramente como ilegal... mas chegou para o ano novo e a convivência com tios, primos, avó. Provocou muitos risos ao convocar todo mundo a planejar os dias... lembraram-se todos de mim... sempre estimulando atividades e passeios. No terceiro dia me ligou: ”Mãe, que saudades dos missionários... eles são tão purinhos...” Sentia o distanciamento desse mundo especial em que vivemos agora. Logo foi para Belo Horizonte esperar a chegada de nossos amigos Lucas Lage, Franklin e Stéfano. Então sentiu-se mais confortável, já não era a única diferente. Ah... ela serviu uma missão nesse tempo, mesmo sem ter usado uma plaqueta... Foi exemplo e inspiração para muitos, inclusive para mim. E eu a honro tanto por sua determinação de fazer o que é certo, sua coragem de defender a verdade, sua disposição de corrigir os erros e realinhar a vida, a certeza de querer algo digno para sua existência. Essa semana saiu com as sísteres de Camobi, meia hora de ônibus, quinze minutos de caminhada para chegar. Calor de 42 graus. Cabelo preso, saia de algodão, rasteirinha. Viu a tristeza e a miséria do mundo. Voltou com um espírito de gratidão pelo que tem e com a compreensão que mesmo com tão pouco, o bem mais necessário na vida de cada um é a verdade do plano de Deus.
Diogo prossegue em Cariacica. Tem realizado um bom trabalho com os membros e os líderes. Fez 20 anos em 14 de janeiro. Sou uma mulher de meia idade!!!!! Mandamos uma pizza e sorvete para a casa dele por meio de Presidente França, Presidente da Estaca vizinha, Vila Velha. Está feliz com os batismos e conversões que tem visto e sempre tem histórias engraçadas para contar. Contou-nos de uma senhora de quase 60 anos; que com sinceridade de coração perguntou-lhe: “Elder, precisarei deixar meu forró de lado?” Diogo velhaco logo pensou nas madrugadas de sábado, o sono impedindo a senhorinha de estar na Igreja de manhã... “A que horas é, irmã... ?’ ‘ Sábado à tarde, meu filho.’ ‘ Então tudo bem... A senhora pode perfeitamente continuar a dançar...’ “Agora eu sei mesmo que essa é a Igreja verdadeira de Jesus Cristo. Não me pede o que não se deve pedir!” Ri demais! Falar com ele no Natal foi muito especial. Sentimos nele o espírito que sentimos em nossos missionários aqui e até gravei partes de nossas conversas, porque sei que terão muito valor no futuro. Nossa família envolvida nessa obra tão sagrada quanto prazerosa. Aliás, o espírito da coligação de Israel é um espírito de renovação. Sinto-me mais nova, mais bonita, mais saudável, mais disposta do que há muito tempo. E não quero perder isso. O segredo é continuar a envolver-me com o que realmente tem importância na vida.







Antes de ser designado como Líder de Zona em Cariacica, viajava pela missão e foi a Cachoeiro do Itapemirim onde até almoçou com nossa Sister Bernardo. Relatou que tomou água e tomou água. Conta: “Fiquei com febre, de cansaço, no sábado à noite. Depois, coloquei o joelho no chão e disse: "Senhor, o Presidente Pickett me prometeu que eu não ficaria doente, mesmo que o meu corpo não agüentasse". A febre passou e eu dormi quase bem, nos 33 graus que faziam aquela noite.” Outro dia ouviu da esposa do Presidente: “You are a perfect mix of your dad and your mom.”“ Ri-me, pensando nas nossas conversas. Roubei o bom de você e o bom do papai... hehhehehe =) Ainda bem que peguei a sede de saber sempre mais! Não pode parar o progresso, ou isso se torna Reino Terrestrial.” Dia desses foi a Nanuque, norte de Minas Gerais. Contou-me: “já que tinha mesmo que ir a Nanuque e Teófilo Otoni, que pelo menos se trouxesse” delícias da terra “... hahahahaha!” Eu sou dessa política também. Se vamos, vamos aproveitar. Desfrutar! Nem que seja biscoito de polvilho! A gente pode fazer a vida mais doce ou mais azeda. Depende do que desenhamos nas margens de nosso caminhar.






Tivemos algumas visitas nesse período de férias. Os pais de Elder Mendenhall, nosso pianista tão forte jogador de Futebol americano, os pais de Elder Young, o que sempre tinha um sorriso no rosto. Avisei às mães: Tivemos o melhor deles... Elder Eduardo chegou para o Natal. Deu o bolo na noite do dia 24 mas apareceu no dia 25 bem faceiro, de moto... Sempre pedindo minha autorização para essas viagens loucas que faz... sabe que detesto que ande por aí correndo risco de vida! Um espírito tão livre... Elder Ferreira também veio. Coisa boa vê-lo depois de dois anos e saber que está bem, empregado, progredindo. Outros estão a caminho, alguns ainda aqui, outros já para Belo Horizonte. Muitos planejando para nossa despedida nos dias 22, 23 e 24 de junho. Quero minha casa sempre aberta, para reviver esse tempo tão prazeroso e tão pleno da pura caridade que desfrutamos aqui. Ficam o amor e o carinho. Que consolo para as inúmeras vezes em que me pergunto o que vai ficar disso tudo face aos eventuais descasos que enfrentamos. Essa é a vida. Mas só temos o que é nosso. O resto se vai mesmo! “De que adianta uma dádiva se um homem não a recebe?” (DeC. 88) Essa certamente é também a pergunta de Deus para conosco. Um banquete a nossa espera, e não devemos desprezar. Viver é um dom, viver desfrutando com alegria uma dádiva ainda maior.