Capítulo 3

Olá, meus queridos!!

Tem gente como mamãe, papai, minhas avós e Dona Emerita que não estão recebendo essas notícias por não usarem Internet. Se alguém chegado pudesse fazer esse favor e imprimir para eles, agradeceríamos!

Aqui tudo continua bem. A casa cada vez mais em ordem. Quadros já no lugar, livros também. É um alívio. Felizmente minha família não sabe viver em desordem... (confesso que os meninos em processo de aprendizado...). Tudo (ou quase tudo) funcionando. O frio continua também, com chuva, o que é para os mineiros, uma novidade. E dá-lhe água, que entra em tudo e deixa as paredes escorrendo... impressionante.

Essas duas semanas viajamos de segunda a quinta. Na primeira fomos para as cidades do Norte: Ijuí, Santo Ângelo e Santiago. Bem no meio da região das Missões Jesuíticas. Viajamos em 6: nós quatro, Fernanda, Elder S. Moreira, Assistente do Presidente. A Zafira lotada, já que somos o correio dos missionários. Todas as cartas e pacotes são enviados ao escritório da Missão e nós levamos nessas Conferências que acontecem a cada 6 semanas.

Plantação de sorgo
Plantação de sorgo
Campos muito verdes
Campos muito verdes
Catedral de Santo Ângelo
Catedral de Santo Ângelo

A região é linda! Campos bem verdes, muitos pássaros. Infelizmente já atropelamos 4 ou 5. Eles simplesmente voam na frente do carro especialmente nas viagens bem cedinho. E... já era! Me dá uma aflição! O presidente anterior contou quantos atropelou... mais de 250, se não me engano, em 3 anos. Fico 5 minutos suspirando e me assustando com cada um que se aproxima, o que fez nossos missionários rirem muito... Lembram do meu susto contido quando via baratas? Mais ou menos assim... sem gritar alto, mas aflitíssima! Deve mesmo ser uma cena... mas é o máximo que consigo.

Santo Ângelo foi a última das Missões dos séculos XVII e XVIII e ainda ostenta uma catedral lindíssima, réplica da existente em São Miguel das Missões e que “dá de 100” na primeira, com certeza. Mas é uma cidade agradável, com um bom hotel (coisa rara nesse interiorzão). Mas as ruínas de São Miguel... são um capítulo a parte... impressionantes. Tão solenes! O tempo ali conta histórias e emociona. Não sabia muito sobre esse período, mas depois de ler cada inscrição e conversar o dia todo com os guias, aprendi que os jesuítas chegaram aqui quando essa terra não era demandada nem por Portugal nem pela Espanha.

Construíram uma sociedade igualitária (o que imagino hoje meio romanceado...), mas a verdade é que progressivamente mais e mais guaranis buscavam em suas terras segurança e proteção. A diferença desse modelo, segundo me disseram, é que os jesuítas não exploravam em excesso os índios a quem civilizavam. Havia a roça "de Deus", que provia pelo clero e necessitados, e a roça "dos homens", onde eles trabalhavam em dias alternados. Tal organização permitiu um progresso econômico que despertou preocupação nas nações ibéricas, que decidiram no século XVIII que permutariam a região de Sacramento e Missões, expulsando assim todos os guaranis ali instalados. Eram mais de 30 reduções a época e a guerra que se seguiu foi cruel com a parte mais fraca da questão. Ainda hoje olham-se esses guaranis, uns 300 numa aldeia vizinha, que mantém sua língua e alguns dos costumes, imaginando-se o poderia ter sido.

Foto do capítulo 3
São Miguel das Missões
São Miguel das Missões

A catedral é imponente, as linhas arquitetônicas ricas em detalhes na volumetria, ainda que hoje desprovida de cobertura. O arenito vermelho e rosado das paredes cria panos de luz e sombra que quase nos permitem tocar os usuários da época. E pensar que já saíram de lá há 300 anos... Disseram que a de Santo Ignácio na Argentina é a mais preservada de todas... quem sabe escapulimos lá dia desses :) ? A noite assistimos, enrolados em cobertores que recolhera em excesso da casa dos missionários, a um show de som e luzes. Tocante! Valeu cada minuto!

Combináramos um jantar típico na Fazenda do Presente, em companhia do senhor Ormínio (se não me engano) e sua esposa. Serviu-nos na beira do fogo: carreteiro, batata doce, mandioca, salada verde, churrasco de costela, de charque, ambrosia (nem de longe como a do Xapuri...), sagu. Tudo delícia. O melhor foi a conversa. Um dos netos estava lá, um rapazinho de 15 anos e ouvi a frase mais bagual (caipira do sul) que jamais imaginara: "Aí nós juntemo o gado, cerquemo ele e amarremo e marquemo a fogo..." Engraçadíssimo! Hoje no Supermercado ouvi uma senhora ao celular: "a gente vai se atrasar porque ainda temo no Supermercado..." (estamos...). É comum perguntar: "Comé que temo? Temo bem, temo indo" Mas tudo gente boníssima: simples, sinceros, trabalhadores.

Para o Sul - Alegrete, Uruguaiana e Livramento, que visitamos essa semana sem Fernanda e Nat (que estava já em aulas) e com Elder Kennedy (o outro assistente do presidente), a influência do espanhol é enorme. Tem "criança de xisme, abanando para tomar uma tunda de laço" (criança aprontando pedindo para tomar uma surra com o relho) ao que a mãe repreende "não te passe guri!... Guri, tu tá te passando! Tem "frio de renguear cusco" (tão frio que adoece cachorro). "Se apura que teremos um almoço buenaço! Bota massa! (legal) Louco de especial!” Também tem verbos tipo casariando (o caseiro casaria...), chaveando (ato de trancar uma porta), ou estar "assoviando uma havaneira grossa" (estar passando por dificuldades). Muito divertido. Isso sem contar a entonação das mulheres de Livramento, que sobem o tom no final. Vocês teriam que ouvir... "Eldeeeeeer, leite quenteeeee dá dor no denteeee!" Nas Conferências sempre tem irmãs que voluntariamente cozinham para aqueles 20 missionários esfomeados. Tenho achado a comida muito boa. Acho que estou ficando como eles... muito disposta a comer depois de 5 horas de reunião... Funciona assim: começamos às 8: 30, com intervalos seguimos até 13:30. Eu usei 1 hora para dar aquele tipo de instrução que mencionei no último e-mail, sobre saúde , limpeza, casas deles. Depois do almoço visito algumas casas (geralmente 4-5 ) com o Assistente e duas duplas, mais Diogo, que está no maior entusiasmo com a vida missionária... Elder Kennedy já entra abrindo o armário de comida. Logo está mastigando alguma coisa, geralmente doces e bobagens enviadas pelas famílias dos americanos... e ainda me oferece. Serve um tantão pra mim e quando eu não agüento diz : "se a Sister não quer , eu posso comer!" Safado! Mas, tadinhos, todos compartilham de boa vontade. Crônica é a limpeza atrás do fogão e geladeira... o fogão costuma estar horrível também.

Ruínas de São Miguel das Missões
Ruínas de São Miguel das Missões
Foto do capítulo 3
Guaranis
Guaranis

Piada foi um missionário americano recém chegado que caiu numa área muito pobre de Uruguaiana, cheia de cachorros (eles não tem carrocinha... imaginem!). No carro me afirmou: "Quero mater todos eles... I hate them all!!!" Quando viu meu limpador com pulverizador ficou no maior entusiasmo: "Where can I find one of these? - Onde posso comprar desses por aqui?" É que ainda não tinha ido a um supermercado, só a um "bolicho" (que eu toda entusiasmada pensei ser o lugar de jogar, mas que na verdade é uma bitaca, mercadinho), onde supriu-se de Miojo e biscoitos. E o quanto ele detestou o companheiro jogar papel no cesto de lixo do banheiro? "I told him: pare! Parar! Pare.... It's disgusting!" O simplório companheiro baiano, muito tranquilamente explicava-me: "O vaso não tem força suficiente para descer o papel. Ele acha que funciona, mas eu fico depois na maior ginástica para fazer descer tudo..." Ri demais naquele dia... Aliás, a companhia desses rapazes me distrai. Acho que fui meticulosamente preparada por Deus para esses dias...

O trem que chega é o mesmo trem da partida
O trem que chega é o mesmo trem da partida
Presidente, Diogo e Elder Kennedy na ponte entre Uruguaiana e Libres
Presidente, Diogo e Elder Kennedy na ponte entre Uruguaiana e Libres
Rio Uruguai
Rio Uruguai

Quarta foi dia de Rivera, no Uruguai, que se divide com Livramento em uma rua e é uma zona de livre comércio. Muitos importados... Lãs maravilhosas, perfumes e cosméticos, eletrônicos...Rodrigo me deu uma capa de lã italiana muito fina, como presente de casamento, que ainda não tinha escolhido. E queijos e massas em profusão! Fizemos a festa. Ainda mais que viríamos embora na quinta e o tempo frio favorecia o armazenamento. Carro cheio na ida e na volta! E ainda queremos voltar mais.

No fim de semana passado voltamos todos ao Restaurante Val Buia para uma noite de tango: aula, jantar e show, com músicos tocando ao vivo e dançarinos. O melhor foi o acordeom, que emocionou! A noite gelada nos recebeu com 2 graus... Não há uma programação cultural assim tão intensa, mas se ficar de olho, sempre se acha alguma coisa interessante.

Nat está feliz no Colégio, começando a fazer amigas. Já recomeçou o Inglês e o basquete. Diogo está na pendência de resolver alguns problemas previsíveis para seguir para a BYU. Nosso tempo com ele está no fim... Fernanda está feliz, um quarto ajeitado, computador na rede wireless, tudo que ela queria... Adorou o contato com os missionários também.