Capítulo 26
Faz tempo que não escrevo... Talvez por que não tenhamos tantas notícias assim. Mas depois de quase dois meses, alguma coisa aconteceu nesse sul, com 150 missionários, uma família e amigos.
Nesse começo de março fomos surpreendidos pela cirurgia de apêndice de nosso amigo Elder Favreau. Ele ficou nove meses no Escritório e tinha saído recentemente pra treinar Elder Fontoura, recém chegado. Um entusiasmo só!! Felizmente estava em Santa Maria e pudemos dar-lhe todo apoio. Foi um dia só de internação, rapaz saudável e forte, mas ainda assim teremos algum tempo fora do ritmo. Isso é triste e difícil para um missionário que quer aproveitar o tempo que tem aqui.
Durante o carnaval pulamos de uma cidade a outra em Reuniões com nossos missionários todos, o que é chamado de Tour de Missão. Acontece uma vez por ano e recebemos a visita de alguma autoridade experiente e designada a isso. Talvez seja nosso último. Ainda me lembro do que tivemos com o casal Ellis e também com Elder Hinckley. Elder Homero Amato e Sandra Amato vieram nos brindar com seu conhecimento e experiência. Serviram na Missão Salvador de 1993 a 1996. Ambos serviram Missão no inicio da década de 70. E ela serviu no Uruguai, nove meses em Rivera, que é vizinho de Livramento. Levamo-na lá então e foi emoção só 40 anos depois. É sempre uma experiência fantástica estar entre os irmãos e aprender com sua fé e dedicação. Estivemos na Segunda em Ijuí, Terça em Alegrete e Quarta em Santa Maria. É sempre bom estar com os missionários, mas quando acontece de ser só na parte da manhã, como acontece no Mission Tour, sinto falta do contato pessoal com eles no período da tarde, quando desfrutamos mais da companhia relaxada em atividades de aprendizado e instrução. Essa semana passada visitamos alguns para que Rodrigo completasse as entrevistas que deve fazer a cada seis semanas com todos eles. E comigo... bem, eles sempre tem o que compartilhar e perguntar.
Meu nome aqui, Sister, A Sister, Sister Myrrha, parece doce... Eles sempre têm assunto comigo e eu fico feliz que seja assim. Outro dia achei graça demais: entrei no banheiro depois de um longo tempo falando com todos e vejo Elder Carvalho correndo atrás de mim: “Sister, Sister, tenho algo pra te entregar...” Surpresa , respondi lá de dentro: Pode esperar um tempinho enquanto uso o banheiro? Acho que ele mesmo se assustou: “São só duas sacolas de roupas abandonadas na casa...” Fiquei pensando que nem ele se deu conta da atitude... Cada vez mais me convenço que sou meio mãe mesmo. Quando Elder Amato mencionou que esse é o tempo em que eles têm duas mães e dois pais no Tour, eu estava no fundo da capela. Só dei com mil olhares esperançosos, confirmatórios, sorrisos de aprovação...
Tenho procurado conhecer mais de perto cada um deles, com perguntas mais pessoais sobre sua vida antes da missão, sugestão de um amigo que me ensinou muito. Sempre fico impressionada com o tanto que deixam pra trás quando decidem servir. Um deles abrirá mão de 100% de bolsa do ProUNI. Teria que voltar em 18 meses, mas não quer. Outros vêm de profissões simples, pouca escolaridade, mas à medida que o tempo passa vão contando das bênçãos que suas famílias têm recebido. Elder Félix conta que em Juazeiro do Norte só ele trabalhava na família. Veio preocupado em deixá-los desamparados. Mas agora todos, pai, mãe e dois irmãos estão empregados. Elder Carreiro deixou a mãe e irmã inativos na Igreja. Nesse meio tempo o padrasto se batizou, a família foi ao Templo e a irmã voltou a Igreja com o marido e também foram selados.
No mês de janeiro fizemos alongamentos no período da tarde de nossas Conferências de Zona. Mandei-os tirar os sapatos e ai ai ai!!! Que cheiro de chulé!!!! Mas corajosamente enfrentei a tarefa e ensinei-os várias posições para prevenir dores nas costas e joelhos principalmente. Ao final, todos pediam: “nuvem azul, nuvem azul” Isso é simplesmente um relaxamento que ensinei há algum tempo e eles amam. Amam ainda mais com a minha voz, que dizem eles, não é como a do companheiro... alguns gravam "respire profundamente, deixe o ar entrar suavemente..." A metade adormece!
Coisa boa é ver o progresso de nossos missionários. Às vezes chegam tão despreparados... Estou pensando em Elder Fábio, paulista, pouco conhecimento. Lembro-me que na casa dele recolhi os chinelos, para obrigá-los a limpar o chão, que eles afirmaram não terem nunca pisado descalços. Que situação a daquela casa em Cruz Alta... Ele e Elder Gonçalo. Um dia, desentenderam-se. Ligaram para o Presidente com o argumento que não dava mais e que seria necessária "uma transferência de emergência". Rodrigo logo avisou: “temos sim, uma transferência para casa. Vocês dois vão embora! Arrumem as malas e me encontrem as cinco na capela.” E lá se foram os dois, malas na chuva, dois pintos molhados, assustados, arrependidos, querendo desesperadamente ficar. Rodrigo sempre ri quando lembra da expressão de alívio quando depois da prensa deixou-os ficar na missão. A briga desaparecera e abraçavam-se como bons amigos. Coisa de irmão que briga ... O tempo passou. Isso tem muito tempo. Elder Fábio, agora em casa, foi um Líder de Distrito, a casa andou em ordem (não 100% , mas bem razoável), ensina bem e até recebeu a sagrada tarefa de treinar outro missionário. No testemunho de despedida compartilhou: “Aprendi a construir um futuro. Bah! É duro ser orgulhoso e levar tanto tempo para aprender. Sou grato a meu Deus e a Seu filho Jesus Cristo. Aproveitem esse tempo." Naquele dia minha maior experiência espiritual foi o testemunho daquele jovem, vendo a mudança de seu coração.
No escritório chamei atenção de Elder Wageman uma dúzia de vezes... vez ou outra estava sem barbear-se. Um dia, encontrou-me e disse do nada: Sister sabe o que eu pensei? Eu disse: Você vai trazer um barbeador para o Escritório para os dias que esquecer... E ele: “Como você sabe???” Meu pensamento foi à frente dele... Nem é tão difícil... Parece coisa de mãe mesmo! Quando saiu do escritório semana passada transferido para Panambi, passou o dia me rondando... Chegava a rosnar que nem um gatinho manhoso. Eu sabia o que ele queria e dei-lhe então um abraço bem gostoso, despedindo-me dele no Escritório depois de sete meses. Quando Nat veio embora, trouxe uma caixa enorme de gravatas e meias que a mãe dele coletou entre os amigos. Sempre falo com ela no gmail... Quanta generosidade... E a missão continua a ter de tudo para todos. Recebemos tantos elogios do casal Amato... Disseram nunca terem visto algo tão organizado e completo... Continuo afirmando que “na Terra há bastante, até de sobra.”
O amor que desenvolvemos continua pelo tempo afora, estou me convencendo disso. É comum abrir meu e-mail e achar recados do tipo: “SISTEEEERRR! (quase leio MÃÃÃÃEEEE!) Tá aí???”, ”Sister, me liga! Tenho novidades.” Quando retorno, tenho notícias de noivados, de casamentos marcados, de nenéns encomendados. Alguns me ligam em momentos cruciais de suas vidas: por agora mesmo recebi um telefonema de Elder Thomas compartilhando que falaria naquele mesmo dia com o pai da namorada com quem resolvera se casar. Queria falar comigo antes de fazê-lo. Aconselham-se sobre padrões de namoro, sobre trabalho, escola, estudos (tem 3 querendo fazer Arquitetura...). Outras vezes a mensagem é só do tipo “Sister, te amo!!!” Ri demais de Elder W Ferreira que me acha todo dia no MSN: “Sister, você continua linda como sempre!” Comentei: mas você não me vê tem tanto tempo... E ele: “quem disse que não? Entro toda semana no site do jornal da Missão e você continua a mesma!” Isso porque nele temos a mesma foto de fotoshop oficial do casal... Sempre foi um palhaço mesmo... Mesmo aqueles relacionamentos tão intensos aqui e que pareciam ter ficado no passado de repente revelam-se tão vivos e chegados. Outro dia falei com um amigo já há muito em casa. Agradeceu-me por um e-mail que mandei nem sei mais quando, onde falava de meu namoro com Rodrigo e dava conselhos sobre convidar mais Deus para o relacionamento, coisa que se fizesse de novo, gostaria de incluir. Ele nem tinha respondido na época... sempre me magoava e pensava se valia a pena insistir, mas nesse dia entendi um pouco mais que é o tempo de cada um, quando ele me relatou que lera partes disso para a namorada e recomeçara o namoro nessas bases sugeridas por mim. Conversamos longo tempo... uma proximidade que me alegrou e me encheu de esperanças para o futuro. Às vezes é muito difícil deixar ir os que amamos mais de perto, aqueles de quem esperamos reciprocidade na amizade, demais de igual para igual. Mas esqueço que têm metade da minha idade, uma vida inteira para construir, metade da minha experiência vivendo e que casei no ano em que nasceram! Há!Ha!Há! Estou quase idosa!!!
Muitos de vocês devem ter visto meu Orkut (alessandrachoairy) ou Facebook (sistermyrrha), mas estão cheios de novidades. Incluí um álbum com fotos de nossos missionários que se casaram. Foram mais de 21, acreditam? E só crescendo!!! Foi bem divertido. Também postei no Youtube os filmes da Missão, 2007 de Elder Crose e 2008, de Elder Favreau. Fácil achar: Missão Brasil Santa Maria Filme 2007 ou 2008. Acho que vocês vão gostar. A próxima coisa é organizar um mapa com o lugar de origem de nossos missionários. Quero visualizá-los pelo mundo. Depois de um ano e meio na Missão podemos contar missionários já retornados, novinhos que chegaram depois que estamos aqui, jantares de saída, outros tantos de chegada. O último grupo que chegou com Presidente Mack vai embora semana que vem. Seremos os mais velhos aqui. Assustador!!!
Com os membros temos nos alegrado mais também à medida que o tempo passa. Estamos planejando uma reunião com os casais que se batizaram desde que chegamos; somente aqui de Santa Maria são mais de 30! Queremos ajudá-os a incluir em seus planos o Casamento Eterno, que tem sido uma bênção tão grande em nossa vida. Há coisa de quase um ano batizou-se uma família, Rafael e Miriam, muito especiais, encontrados duas vezes por Elder Hurst (dessas coisas que só com fé se explicam: Elder Hurst bateu na porta deles em Livramento. Meses depois, transferido para Santa Maria, bate de novo na porta deles...) Agora já se preparam para ir ao Templo. Eles têm um filho, uns cinco anos, que acreditava piamente que Elder Dickinson, nosso antigo secretário financeiro, era o Batman, ele o Super Nego. Deram a ele um anel CTR e ele se tornou o Lanterna Verde. Um dia, Elder Dickinson falava comigo ao telefone e o guri quis saber quem era. “A mulher maravilha!” E me colocou para falar com ele. Nunca mais ele me esqueceu. Encontra-me na Igreja e vem de longe “Mulher Maravilha!!!" e me abraça caloroso. Essas coisas não são para se esquecer. Está aí a foto de meu amiguinho super herói!
Tenho recebido notícias de meus alunos/filhos que estão na missão. Lucas Laje, Franklin Santos, Stéfano (desaparecido), mais Juninho, Felipe e Gil que já voltaram. Estão todos bem e progredindo. Agora vai Leonardo Sa les. Ficam faltando Rafael Pereira e Henrique Salles. Serei uma professora do Seminário realizada. Será que ainda verei alguma das meninas indo também??? Ri demais do Juninho, que marcou de sair com uma moça e mais outro casal. Quando me contou, perguntou cheio de culpa: “ICHIIII! Tinha que ser em número impar, né Alessandra?” Fiquei feliz de explicar que esse tempo dele já passou, isso era antes da missão. Agora a melhor coisa será sair em duplas mesmo. Ehhh! Mais casamentos a vista em algum tempo prudente.
Nat está feliz. Às vezes entra em crise, geralmente crise da idade. Mas fico tão grata que ela procure se adaptar aqui, faça amigas, participe das atividades. No Carnaval foi ao Acampamento com outros 220 jovens. As líderes são muito dedicadas e as atividades foram de primeira. Tem-se mostrado muito despachada , ainda mais do que quando foi para os EUA. Cuidou de seus próprios livros e uniforme nesse começo de ano e declarou-me querer estar entre os melhores.
Diogo fará seis meses na Missão. Nem acredito! A saudade é tranqüila. Muitas vezes mais do que de missionários que perdemos. Ele está bem, ainda em Rio das Ostras. Muito amado por todos naquele “raminho” onde ficará por pelo menos seis meses. Tem aprendido lições importantes e falando com Elder M Lopes outro dia, ouvi: “a gaiola dele ainda é pequenininha, né sister??” Concordo, mas sei que faz parte do treinamento para aprender lições fundamentais para sua vida inteira. Temos orado por ele, pela sua Missão e pelo Presidente e Sister Pickett. Estão fazendo um bom trabalho. Falei com uma família que ele ensinou e batizou lá, Alexandre e filhos, e só ouvi elogios. O pai resumiu: “É impressionante como ele sabe ensinar o evangelho. Como conhece as escrituras e usa esse conhecimento para ajudar-nos a entender os princípios.” Fiquei pensando que no meio de tanta coisa surpreendente que Diogo conhece e sabe (ele era nossa Enciclopédia ambulante, não sabia: perguntasse ao Diogo!), nada pode ter maior valor do que conhecer e saber aplicar as escrituras a sua vida. Que bênção! Fiquei bem feliz! Mesmo à distancia tem sido um amigo. Enfrenta seus desafios, mas vemos seu progresso e desejo de fazer o que é certo. Sempre é muito divertido no que registra, inclusive fotos. Seu penúltimo companheiro terminou a missão e voltou a Livramento, onde o encontramos dias atrás. Foi muito interessante obter um relato sob a ótica de outro missionário. Seguem partes de seus escritos:
Dos conselhos do pai sobre comer verduras e tomar menos refrigerante para a saúde do esôfago:
“Ta engasgando?? Que horror pai...Verdura eu não como, nunca comi e não pretendo comer. Fruta? Tenho comido todo dia. =) Banana, maçã, laranja, mexerica, manga... Essas são as que eu sempre como.”
Da vida de missionário:
“O dinheiro não tem feito falta não, tenho aprendido a viver com muito pouco. Muito pouco mesmo. Mas tudo bem, vivo saudável. Lembrei muito de você outro dia, quando ganhei (ou pedi) 7 canas caianas, em ponto de serem comidas. Delícia... descasquei tudo, piquei e botei na geladeira... os americanos também lamberam os beiços... afinal, era muita cana... hahaha”
Do companheirismo e talentos (mora numa casa com 4):
“Falando em música, moro agora com um músico profissional. Temos ensaiado muitos hinos, para serem cantados a 3 vozes. Eu em uma, ele em outra e os outros dois na melodia... muito show, muito show... apesar dele me matar de trunkeza (trunky é uma expressão comum entre missionários com saudades de casa e “fazendo as malas”, ou “being trunky”), ouvindo clássicos da musica popular brasileira... hahaha”


Sobre as experiências de sentir-se guiado pelo espírito de Deus ao realizar o trabalho:
“Oi Mãe... como anda vida aí, em Santa Maria? Por aqui, tudo bem... Minhas experiências tem sido muitas. Desde um impulso as 10 pras 9 (horário de estar em casa) para visitar uma Recém conversa, que eu não sabia onde morava, encontrando o caminho por meio de orações e lá encontrando-a doente, abençoando-a e ela curada... a lições inspiradas ajudando com problemas que somente o Espírito sabe que os pesquisadores tem. Tenho aprendido muito, muito mesmo. Minhas últimas 5 semanas haviam sido vazias de experiências espirituais. Estava lapidando o diamante que sou. Sofrendo, preocupado demais comigo para cuidar dos outros.”
É isso, sempre boas coisas para contar, que as ruins a gente vê no Jornal Nacional (minha dose é de um por mês e deu!!!). Mamãe está usando bravamente a Internet e do e-mail passado comentou: “Olho as fotos e vejo todo mundo feliz por viver o Evangelho”. É isso mesmo: essa é a garantia de felicidade: viver como Deus planejou para nós, viver o Grande Plano de Felicidade do Evangelho. Não é a toa que eu e Rodrigo temos vivido dias de grande equilíbrio entre as partes. Passei algumas aflições pessoais e contei com tanto amor e dedicação dele... É meu companheiro eterno, algo perene nessa vida de vir e deixar ir.





















