Capítulo 28
Outro tanto de tempo... descobri que só em Minas se fala “tanto”: “um tanto disso”, “um tanto daquilo”, “Vó Tantão”...será que vem disso? O fato é que já tem um “tanto” de tempo que estamos aqui e a vida prossegue.
Estive “de aniversário” semana passada, como sabe a maioria. O dia foi muito simples. Não convidei ninguém, mas minhas professoras visitantes Lourdes e Rosa vieram bem como minha vizinha Rosita, colega de cerâmica e a professora Ana Maria. Mais tarde dois casais, Bete e Dutra e Maria e Manoel Flores. Recebi tantos scraps no Orkut, Facebook, e-mails!! Senti-me querida... novos amigos, gente de muito tempo, gente nova, gente velha, gente que me marcou, gente que eu marquei, filhos recém adquiridos. Essa é a vida que vale: viver com amigos ao lado, saber-se útil, deixar marcas... Outro dia me disseram: “Sister, você não é normal.” Fiquei feliz em responder que não sou mesmo, que nunca quis ser, que ninguém merece ser normal. Normais não marcam, não se fazem presentes, normais nem existem se olhados de perto. Prefiro ser anormal mesmo. De outro amigo ouvi que deixaria marcas em muita gente de Santa Maria quando reclamei que sentia não deixar muitos amigos aqui. Faz meses essa conversa, mas aos poucos vou percebendo que vou mesmo conquistando e sendo conquistada. Outro dia recebi de uma jovem amiga uma mensagem assim:


“Eu sou grata por seus conselhos que me fazem refletir. Não sei ainda o que o futuro me reserva, só sei que você me ajudou a tomar decisões eternas. Antes de te conhecer tinha me decidido por concluir minha faculdade, me tornar independente, morar sozinha e não me casar de jeito nenhum. Mas depois, conheci você e presidente Myrrha e vi que apesar das diferenças um casal pode ser feliz, vocês irradiam felicidade e mostram que no casamento nem tudo é perfeito e principalmente: que sozinhos não vamos a lugar nenhum.”
Dois de nossos missionários retornados casaram-se, Sister Naiana Silva e Elder Ramon Nogueira. Moram em Natal, RN. Bem distantes, mas nos fazemos presentes na vida deles de maneiras divertidas. O primeiro e-mail que ela me mandou reflete isso:
“Além disso, seus ensinamentos estão gravados dentro de nós. Quando vier em nossa casa, espero que não demore muito, verá algumas coisas que nos ensinaste como o uso do Lysoform, a esponja do banheiro com a pontinha cortada, entre outras... São aprendizados que levamos para toda a vida, não é? MUITO OBRIGADA!”
Ia eu pensar em me fazer presente por uma esponja com a pontinha cortada no banheiro??? Herança da sabedoria de Dona Pina! Não é à toa então que alguns me relatam pensar em nós, ou em mim em tudo o que fazem, muitas e muitas vezes no dia. Sou obrigada a acreditar, por que muitos deles estão sempre em meus pensamentos, pensamentos cheios de saudades e pesados de ausência, mas com a alegria de ter vivido momentos tão ricos e memoráveis.


O contato com os missionários retornados aumenta na medida em que pesa mais e mais meu coração na falta e o deles na necessidade de apoio em momentos delicados da vida. Falo com muitos todos os dias e sinto nisso um comissionamento divino de apoio e acompanhamento daqueles por quem um chamado especial nos fez responsáveis. As conversas fluem fácil, com confiança e reciprocidade. Mesmo entre aqueles que nem tão próximos assim foram aqui. É incrível como o mundo precisa ser ouvido e como ouvir nos faz sentir úteis. Sugeri isso a um deles que me disse permanecer sem chamado na Igreja. Tanta gente precisa de estímulo, às vezes pequeno, para perseverar. Precisam de amor e compreensão e de ser lembrados de convênios maiores que fizeram. Colocar os problemas na perspectiva correta: desesperar jamais!
A perspectiva que têm da Missão me enche de alegria por ter sido um tempo tão marcante nas suas vidas, temos o melhor deles, como me explicou um querido. As expressões de saudade e abandono prenunciam o que nos aguarda em um ano, sem essa ocupação que nos enche os dias e a cabeça. Conversando com Elder Tinti outro dia ri demais: No meio da conversa naqueles dias que esfriaram todo o Brasil, vem ele: “Ai, ai, ontem eu estava andando sozinho com meu sobretudo, pela 1º vez depois da missão. Foi uma doce lembrança, só que desta vez eu estava só andando na rua...”
Em fins de maio estive em Belo Horizonte. Não estava planejado e poucos compreenderão os sentimentos confusos que me assolaram o coração. Fui com a tarefa de adquirir um terreno para construirmos uma casa para nosso retorno. Eu e Rodrigo desde que nos casamos há quase 22 anos nunca fizemos nada sozinhos, ainda mais dessa magnitude. Orei muito, pedi muito ao Senhor que me guiasse ao negócio certo. Sou muito grata a Ana Elisa e Carla que me guiaram nesses dias em que me senti como uma menininha indefesa. Não estou preparada para a maldade do mundo. Tenho vivido em uma esfera mais elevada... quase fechei um terreno sem pedir nenhum documento, imaginem!!! Mas aos poucos fui me ligando, até no trânsito, coisa boa que mamãe me deixou com o carro dela. E andei! Rodei! Orei! E aprendi muito! Aprendi lições eternas. Aprendi que quanto mais fiéis somos, mais livres somos para escolher. Como diz Diogo, “Não é o arbítrio que nos faz livres, mas as boas escolhas que fazemos. Interessante, não? Rédea curta àqueles que escolhem mal, liberdade aos que escolhem bem.” Considerando o que realmente importa na vida, para a única decisão de peso real, tanto faz eu estar em Santa Maria, em Lagoa Santa, em BH ou no fim do mundo. Aprendi que o livre arbítrio é um dom de Deus a ser conquistado progressivamente. Entendi que Ele não me guiou de imediato para que eu pudesse construir meu entendimento do que era o melhor para nós e que a incerteza e a dúvida fazem parte do processo da ponderação e do amadurecimento. Muitas vezes definiremos o que queremos a partir do que sabemos não querer. Ainda assim o medo é inimigo da fé e teremos que caminhar no escuro até enxergarmos a luz.
Papai solicitamente me buscou na sexta à noite no Aeroporto e fui direto para o Bocão da Guarapari, lugar de tantas “saídas” com os filhos e os amigos... Açaí, caldo de feijão, torresmo e macarrão com molho no quilo... Ariane, Sonia, Luana, Camila, Mamãe e Babaia e Gil Filho estavam lá. Chegou Juninho e Bruno, quase todos ex alunos do Seminário que eu amo de paixão. Me amassaram... fiquei mais a vontade com os meninos, sempre. Mas tive conversas interessantes com as meninas. Isabela Bretz saiu da Ala Bandeirantes só pra me ver no domingo, outras tantas ex alunas em volta, me lembrando de momentos especiais . Foi tudo lindo com eles.
Coisa boa foi passar o sábado com a família: mamãe, irmãos e sobrinhos. Os sobrinhos todos se adoram... nem um triz de rusgas...Direito a violão e cantoria, ai que saudades que isso dá. Receber a visita da Cláudia, que se mandou de Governador Valadares de ônibus para BH só pra me ver, coisa de amiga. Domingo fui com mamãe a Ala Pampulha e fila de gente para me abraçar. Lúcia Faria repetia: “Nem parece que você saiu...é a mesma Alessandra”. Senti-me mesmo bem querida. Foi como um chão, que sei que vai estar lá quando voltar. O chão daquilo tudo que vivemos e construímos em anos e anos de trocas, convivência e amizade com tantos. Fui almoçar com a sogra. Dona Emerita tem-se revelado muito amiga, sempre que vem aqui gosta tanto... aproveitei para uma visita rápida ao Marcos, sobrinho filho da Juliana que nasceu há pouco. Fomos juntas também a casa da minha avó Conceição e de lá consegui levá-la a casa da Vó Ica, a tia avó que me conta como “ Minha primeira neta!!” E foi tão bom! Estão bem idosas as duas, ficaram anos sem conviver, briguentas que são... e eu na campanha pela reconciliação. Foi muito bom vê-las unidas, amigas, dispostas a apoiarem-se como dá nessa época da vida. Tiramos fotos, as pernas fraquinhas confidenciando que iremos todos pelo caminho de toda a terra. Acho que foi bom para minha sogra, que no sábado tinha visitado três irmãos bem enfraquecidos em Carangola. Vó Ica e Vó Tantão repetindo: “Como te amo, minha neta querida... blá blá blá...” Com um pouquinho de esforço, fazemos muita diferença na vida das pessoas e elas reconhecem com o tempo e ficam gratas. Fico feliz que tenhamos aproveitado a companhia das avós enquanto pudemos passear, viajar, sair para almoços e passeios. Penso na experiência sagrada que tive com Vó Ica. Fins de 2006. Acordei um dia com o pensamento: “Pergunte à sua Vó Ica se ela teve alguma tia.” Depois de tantos anos trabalhando com a História da Família nunca me ocorrera que Maria Francisca de Jesus pudesse ter uma irmã. Deixei passar mas a impressão persistiu até que liguei e a resposta surpreendente me veio: Tínhamos sim a Tia Rita, que teve muitas filhas, lindas... lembrava-se de uma com quem tivera um último convívio uns 15 anos antes. Tentei telefone e contatos infrutíferos até que a convenci a me acompanhar ao bairro onde Elvira morava. Não estava bem certa do lugar, tudo mudara tanto... Os minutos passando, a incerteza aumentando... até que paramos defronte a um depósito de material de construção e perguntamos por Elvira, uma senhora de uns 80 anos, olhos bem azuis, mãe de Milton... A voz veio lá de dentro, inaudível e repetida por um atendente que estava à porta: “Siga nessa rua até o fim, terceira a direita, terceira a esquerda , quarta a direita...” e eu orando para não esquecer. Era longe! Trocava de bairro... e eu orando para que a indicação fosse certa. Quando terminaram as indicações, avistamos um senhor. Abri o vidro do passageiro e perguntei: Conhece Elvira... “Durica, você não está me conhecendo? Sou o Miltinho, filho da Elvira... moramos ali naquela casa...” Quanta gratidão quando alcancei aquele povo perdido na minha história incompleta. Tanta dor e tanto sofrimento por não conhecerem o plano de felicidade de Deus... Nomes e mais nomes, outros caminhos preparados para quem quer realizar a obra do Senhor. Tudo muda muito rápido. O dia é hoje!






Feliz coincidência quando na segunda deixei mamãe no Aeroporto para ir a Brasília e já peguei uma família especial de Santa Maria que Elder M Lopes encontrou e que veio para uma consulta no Hospital Sarah Kubitchek. O filhinho deles tem problemas neurais e é paraplégico. Ficaram muito felizes que eu estivesse por ali.Vejam como o Pai Celestial faz as coisas. Levei-os para a Casa Deseret e ainda emendei num jantar de despedida para os presidentes de missão de BH, que já se vão. Foi bom vê-los. Conversei muito com minhas amigas de um ano em BH, Sister Frei e Sister Johnson e agora companheiras no trabalho que realizo. Casa do Tatu, Presidente Dias, ele e Ariane sempre tão solícitos e amigos...que aliás mandam Gabriel em agosto para a Missão Recife! Estavam só os presidentes das Estacas e esposas e Elder Tobias, Setenta de Área e Tati. E eu sozinha. Mas fico tão à vontade... nem parece eu, né?
Eu e Rodrigo estivemos muito envolvidos com as compras para as casas dos missionários. Adquirimos 57 microondas, um para cada casa e distribuir isso é que foi complicado – conseguem imaginar? Já tenho pós-graduação em logística! Também completamos os armários-roupeiros, os gabinetes de pia de cozinha, panelas grandes para todos, além de uma infinidade de pequenos itens, de colheres de silicone trazidas pela família de Elder Mellor a chave de fenda e alicate. De cortina de box a balde e esfregão. Aquecedores, ventiladores, capas de colchão, uns 40 itens ...somente...o difícil é descobrir o que falta em cada lugar, 57 casas, 18 cidades, 150 jovens de 20 anos. Tenho tido a ajuda inestimável de Sister Fletcher no escritório, uma senhora de quase 70 anos, tão disposta a ajudar... fazemos milagres quando trabalhamos juntas.
Está certo que já é de praxe, mas Nathália novamente recebeu o Alamar, condecoração dada a quem tem notas acima de 8,0 em todas as matérias e bom comportamento. A média dela no primeiro bimestre ficou em 9,6... de tirar o fôlego! E ainda se desdobra em mil e uma atividades, do Seminário Diário a Inglês em última turma do Avançado, na companhia dos universitários; de Basquete a Dança de Salão... E já entrou de cara no terceiro nível... aulas práticas com o irmão, que felizmente não dança como o pai!!! Está progredindo no Piano, embora resista em tocar para mim ...Vai entender!
Diogo segue em Campos. Está fazendo um bom trabalho ainda com Elder Freitas, de Brasília, que ele treinou e que agora completará pelo menos quatro meses e meio com ele. Conta entusiasmado dos treinamentos que tem dado, tanto para Missionários como para Líderes. E na verdade, tem sido convidado pelo bispo e agora até pelo Presidente da Estaca para treinar a Liderança local. Esse não é muito o papel dele mas, como afirma, sabe coisas que não imaginou que soubesse, e aí confessa que aprendeu conosco, pelo exemplo. “Ao tomar decisões, penso em como vocês reagiriam.” Coisa boa de ouvir. Só não nos mandava fotos, até ameaçar ficar aqui com o pacote de delícias que segue essa semana, posto que, como podem ver, fotos chegaram! Ehhhhhhh! Explica que se tira a foto ela fica boa, mas ele não aparece. Quando achei que ia conhecer a família do Alexandre de Rio das Ostras, lá vem uma foto em que a cara dele está escondida... Lidera um grupo de 8 missionários e sobre um irreverente escreveu: “ainda luta com a dificuldade de ser mais reverente e ele tem um Líder de Distrito que é o Ó do Borogodó. A diferença é que eu vejo que aprendi a controlar minha irreverência.” Ouça o Senhor!!!! Está feliz na Ala Turfe de Campos. Diz ele: “Tudo fluindo, fantástico!!”
Em fins de maio adoeceu pela primeira vez na missão: “Essa semana foi daqueleeeeeee jeeeeeeiiito, como diz o funk carioca mais tocado em Campos. Adoeci feio na sexta feira, cheguei a considerar a hipótese de uma inflamação séria em algum órgão interno, devido às várias dores na cavidade barrigal. No sábado, acordei com muita corisa, e então considerei a opção de ser dengue, devido à dor nos olhos e a altíssima febre. Então, conclui que não passava de uma gripe, quando meu companheiro gripou também.” Mas sei que ele fica bem, sempre ficam bem. Vejo isso todo dia.
Fico muito feliz que ele escreva bastante. Acho que puxou à mãe... organizamo-nos escrevendo. Mesmo à distância compartilhamos momentos de muita intimidade e afeição, de aconselhamento e compreensão. No princípio do mês contou-nos de Maria da Penha, uma mulher “como as que se encontra no céu”, ele diz. Afeto mútuo, porque liguei essa semana para ela que se desmanchou em elogios e demonstrações de amor e carinho, um filho, afirma ela! Vamos aprendendo, nós dois, que somos amados por muitos, mesmo que nem tanto a nossa maneira pelos que nos são às vezes mais caros.
“Irmã Maria da Penha que foi nosso último batismo tem grande dificuldade de locomoção. Anda bem devagarzinho, com auxilio de uma bengala, mas compreende os princípios do evangelho como poucos. Por isso, a cada domingo, um irmão fica designado para buscá-la em sua casa. Acontece que nesse domingo o irmão atrasou, e chegou logo antes do sacramento. Quando o bispo a viu, chegando, pela janela da capela, ele pediu que o sacerdote que faria a oração esperasse. Esperamos ali, em silêncio, por aproximadamente 5 minutos, enquanto ela entrava e se assentava junto de uma outra irmã idosa e de mim. O espírito ali era forte, testificava mui poderosamente que “estive nu e vestiste-me, estive na prisão e foste ver-me” e que “quando estais a serviço de vosso próximo estais somente a serviço de vosso Deus”. O bispo, que foi o ultimo orador, mudou completamente o discurso dele, e falou-nos apenas sobre serviço a outros membros. Além disso, anunciou que, queiram ou não, a Ala Turf é agora, oficialmente, uma ala missionária, até que ele seja desobrigado. Agradeceu o trabalho que estamos realizando e compartilhou um poderoso testemunho sobre serviço. Resultado? Muitos membros querendo ajudar! =)”
Sobre tudo isso, escrevi para ele e repito a vocês: Escolher o plano de Deus é a única escolha realmente importante que fazemos. Todo o resto é detalhe, anexo. Facilita ou dificulta a primeira escolha. Mas esse é o verdadeiro propósito de tudo. A vida está aí, filho... à sua frente... para você escolher hoje a quem servirá! Você é a minha casa e temos escolhido servir ao Senhor. Que bênção!!








