Capítulo 30

Olá pessoal!!! Acho que cada vez mais fico mais pessoal e enrustida nesse exercício de não só registrar mas também de avaliar um período muito rico de nossas vidas. As atividades se repetem, mas a vida é sempre nova... Todos estamos bem, felizes, saudáveis, o tempo passando rápido e nos surpreendendo. Temos pouco mais de 9 meses aqui e Diogo completa um ano na missão em duas semanas. Conto exatamente: sou mãe!

Desculpem-me se as atividades vão perdendo o sentido enquanto que a análise de tudo isso vai se sobressaindo e fazendo-me ainda mais pessoal e introspectiva. Acho que vivo mesmo um momento único: eu, introspectiva!!!! E também um momento de muita criatividade. Desta vez, seguirá só o trabalho que finalizei na argila. Experiência nova e muito rica.

Eu, Ana Maria e Rosita
Eu, Ana Maria e Rosita
Escavando
Escavando
Fazendo pote
Fazendo pote

Há tempos gostaria de trabalhar com cerâmica. Achava que a oportunidade viria quando fosse velhinha e achasse tempo para “essas coisas”. Em meados do ano passado, depois de muito procurar, cheguei a Ana Maria, uma baixinha simpática e mansa, formada em Artes Plásticas pela UFSM e com um trabalho consistente em argila. Começamos numa escola para portadores de deficiências onde ela realiza projetos junto aos alunos. Mas nos achamos mesmo quando nos “mudamos” para o espaço de outro artista, Dorly, ex-padre, que tem seu ateliê junto à Cerâmica Pallotti. Os palotinos aqui são fortes e têm desde escolas, faculdades, museus até produção de cerâmica. Tivemos acesso aos fornos que precisávamos e a produção foi crescendo. Minha primeira série foi com pratos: concebi que sendo bidimensionais como o papel com que sempre lidei a expressão fluiria mais facilmente. O motivo foi algo que sempre admirei: os gradis de ferro, que aqui são lindos e muito elaborados. Fotos da arquitetura nos arredores e outras ajudaram a compor o que vocês vêem a seguir. O tema foram os Atributos de Cristo, conforme listados no Pregar Meu Evangelho, o manual de estudo e ensino dos Missionários. Apresento-os na ordem em que foram feitos. Associado ao fazer manual, estudei e ponderei sobre cada qualidade. O aprendizado se completando nas muitas horas de trabalho concentrado, a mente vagando. Atividade mesmo nova pra mim! Aprendi muito: aprendi principalmente que sou tão falha, mas que posso muito se me unir ao Senhor, o cerne verdadeiro de tudo o que nos propomos a fazer. Aprendi que sou criativa e capaz e comemoro esse momento especial com vocês, meus amigos:

Fé
Fé
Virtude
Virtude
Caridade
Caridade

Atributos de Cristo

Fé

Fé é crença ou esperança nas coisas que não vemos, mas sentimos ser verdadeiras.

Não é certeza nem perfeito conhecimento, assim como minha inexperiência ao lidar pela primeira vez com a argila e as tintas. As linhas desse prato que é o menor deles e que foi dos primeiros expressam minha crença de que sem a fé em Jesus Cristo nada podemos fazer de real proveito. O fundo escuro e as cores intensas representam que no meio de nosso nada o poder do amor de Deus nos eleva a “desenhos maiores” e mais ricos do que faríamos sozinhos. A fé é um princípio de poder, que impulsiona a ação. Foi só o começo!

Virtude: esse foi passear

Virtude é a pureza de intenção, desejo, pensamento, ação e comportamento que deve conduzir nosso viver. A forma irregular ainda que circunscrita expressa minha certeza de que precisamos de limites bem estritos permitindo-nos a moldagem divina. A forma foi determinada pela placa de argila. Cortá-la para moldá-la foi de início contrário a minha vontade, como uma poda agressiva, mas o resultado foi tão bom! Creio que agir, escolher agir virtuosamente é assim também: o que nos parece uma limitação abre-nos um caminho amplo, pleno. Os apliques em tons escuros nos lembram de que é no contraste que as coisas de real valor se destacam.

Caridade e amor

A caridade é algo bem simples: o puro amor de Deus. Difícil é a prática daquele amor descrito por Paulo em I Coríntios 13. As formas são simples e expressam que o centro de tudo é o amor que se irradia para outros nas setas (ação) que vão de dentro para fora. Ao assim fazermos, receberemos de volta algo que tem um grande poder multiplicador. O minério de ferro tão mineiro é espalhado irregularmente, porque essa sou eu, não faria outro igual, porque não há outra eu. O branco que tudo recobre é o amor de Deus, que se derrama em profusão e deve cobrir todo o meu ser, ainda que o próprio Deus queira que eu ame a meu modo.

Conhecimento
Conhecimento
Paciência
Paciência
Esperança
Esperança

Conhecimento

O conhecimento puro expande a alma. É um prato colorido, com figuras diversificadas. A forma circular lembra-me que meu conhecimento deve se limitar àquilo que é apropriado a minha fé. Para mim é algo que vem de dentro para fora e ao contrário, sugerido nas setas bidirecionais. Ainda há múltiplos lugares e maneiras, explicitadas nas cores fortes que mostram quão vibrante é a atividade. Os corações lembram-me que aprendo pela fé enquanto que as linhas em organização cartesiana remetem-me ao aprendizado pelo estudo. Pelo estudo e também pela fé: duas testemunhas para minha avaliação do que é bom.

Paciência

Um trincou de dentro para fora... O outro de fora para dentro... Tive que fazer três vezes. Paciência mesmo!Depois de refeito três vezes, empenou ao ser queimado. Ouve quem dissesse que foi uma surpresa não implodir! Só eu...

Aqui a técnica foi outra. Comecei a "esculpir as formas". Esse desenho representa que muitas vezes na vida teremos que fazer de várias formas diferentes se quisermos alcançar bons resultados. Foi algo novo pra mim sair do padrão da colagem para o padrão da retirada de material. As primeiras experiências me pareceram um atraso de vida, mas o resultado foi cada vez melhor. Os corações ainda aparecem como o cerne de tudo o que fazemos para nos parecer mais com Aquele que foi o exemplo perfeito em tudo.

Diligência
Diligência
Obediência
Obediência
Obediência com pote
Obediência com pote

Esperança: há sempre uma surpresa no final

Eu sabia muito pouco o que era “Esperança” até compreender que nos ligamos a pessoas com as quais desejamos ardentemente viver para toda a eternidade, o que significa em última instância, que confiamos nas promessas de Deus. O prato, embora quadrado, ainda se inscreve na figura perfeita do círculo. As figuras já não aparecem explicitas, mas são sugeridas e se fazem presentes na lembrança de outros temas. Enquanto fazia, ponderei muito sobre a esperança que tenho na Expiação de Jesus Cristo como capaz de resolver todas as nossas diferenças e angústias. A surpresa foi o empeno que aconteceu na queima: o forno fez dele algo melhor do que eu mesma fora capaz!

Diligência:

Esse desenho veio de uma foto da noiva de um primo em visita à Espanha. Pareceu-me a princípio muito elaborado, e todas essas voltinhas realmente foram exigentes em relação ao método. Foi a primeira vez que me libertei das figuras estanques e voltei-me ainda mais completamente para a referencia do trabalho de gradis em metal. Não gostei muito da forma externa, mas o desenho me pareceu tão bom no nível de acabamento que compensa essa desatenção do volume. Diligência é assim; cobre uma multidão de defeitos!!

Obediência

O desenho é de um gradil de uma loja maçônica ou igreja em Rio Grande. Muito elaborado, foi um desafio nos detalhes pequenos, como é mesmo com a obediência: temos a tendência de nos justificar nos pequenos deslizes... Infelizmente na queima quebrou...

Humildade
Humildade
Humildade com pote
Humildade com pote

Fiquei meio infeliz, mas tinha duas opções: descartava a peça ou aceitava-a do jeito que se fizera, tirando partido do que ela poderia me oferecer. Estou aprendendo a perder, ainda que tenha investido muito e assim foi que Ana Maria convenceu-me a “estilizar" o desastre... Meu pensamento perfeccionista ainda me diz que tenho que fazer outro...

Humildade

Humildade é ser ensinável, é a disposição de submeter-se a vontade de Deus dando a Ele toda honra pelo que foi realizado. Esse desenho é muito especial para mim. Foi-me mandado por Diogo, foto de um gradil tirada em Campos, onde ele está trabalhando como missionário. Esse atributo pode ser especialmente difícil para quem tem tantos talentos como ele.

O desenho, que se enrosca de fora para dentro formando um círculo, conta que por mais que realizemos é na força da perfeição da Deidade que nos inserimos como co-participantes da grande obra de Deus, o verdadeiro suporte de tudo o que é importante nessa vida expresso no círculo perfeito que se forma no centro.

Talvez não o pinte: deixa-lo assim ao natural, lembra-me que Deus olha para o coração; diante Dele somos desnudos.